Todo mundo escreve — Eu posso estar errado — Edição Nº33

Publicado originalmente na newsletter Eu posso estar errado

O tema preferido dos grandes escritores é o tema da própria escrita, escrever sobre o ato de escrever, discorrer sobre aquilo que eles fazem como ofício de uma vida: uma palavra depois da outra, uma frase depois da outra, a construção do sentido na escolha de cada termo e na imposição do ritmo, o mascaramento do sentido, o convite para o labirinto.

O tema preferido dos escritores que não conseguem escrever é o tema da própria escrita. Quando todo o resto parece impronunciável, nada melhor do que retornar para a base do problema: a escrita em si.

Não tenho conseguido escrever. Mas tenho algumas coisas a dizer sobre a escrita.

Eu lembro com uma clareza incomum do dia em que escrevi o meu nome pela primeira vez. Incomum, porque eu lembro de poucas coisas da minha infância. Tudo é mediado por um borrão, fragmentado. Não o dia em que eu escrevi o meu nome pela primeira vez. Eu estava com a professora em uma das salas da escola, em Boituva, e peguei o lápis com a mão direita e ela disse: escreve aqui, sobre essa linha.

E sobre a linha eu escrevi GABRIEL SCHINCARIOL CAVALCANTE.

E ela disse: muito bem!

Fiquei contente por ter escrito o meu nome, cheio de letras, com H e N e L e R. A partir de então eu ganhei acesso a algo de valor prático enorme, mas também carregado de uma magia nem sempre explorada na sua extensão completa: a partir de então, eu me tornava, gradualmente, capaz de escrever, capaz de fixar pensamentos transitórios em um espaço físico por meio da linguagem, conferir permanência ao impermanente.

Primeiro o meu nome — a nossa primeira identificação. Depois, todo o resto: o meu nome, a minha história, o tempo, o medo, tudo o que vaga dentro de nossas cabeças e que nós nomeamos para sermos capazes de compreender.

Pessoas que escrevem não por necessidade (necessidade no sentido cotidiano, i.e., escrever no trabalho, na faculdade, na escola, etc.), mas pela escrita em si, geralmente escutam a pergunta: mas como você escreve assim? Assim no sentido de: como você faz para as palavras escritas significarem mais do que elas mesmas?

A resposta é simples e não é simples. É simples, porque a resposta é: igual todo mundo, colocando uma palavra depois da outra. E não é simples, porque a resposta é, afinal, igual todo mundo, mas nem todo mundo faz igual.

Vou tentar me explicar.

Quando dominamos a escrita, não num sentido artístico, mas num sentido prático, nós damos um passo definitivo rumo a uma nova vida, em que a nossa existência pode ser mais ou menos configurada por meio da linguagem escrita, que ordena a realidade. A realidade, se pararmos para pensar, é bastante confusa. Tudo acontece ao mesmo tempo, enquanto estou aqui escrevendo, do outro lado do planeta alguém nasce, alguém morre, um avião decola, um avião cai, uma arma é disparada, um beijo é dado, etc. A existência humana, na qual a experiência é formulada, é composta pela multiplicidade direcional do tempo, enquanto a escrita, que exige uma palavra depois da outra, é composta pela linha reta.

Parecem noções conflitantes, e são, mas também não são. Escrever é desmistificar o mistério, simplificar o complexo. Escrever é entrar no labirinto, tocar nas paredes, buscar a saída, e talvez encontrar, talvez não. Depende da competência do escritor.

Joan Didion, em O Álbum Branco:

Vivemos, sobretudo se somos escritores, pela imposição de uma linha narrativa para imagens discrepantes, pelas ‘ideias’ com as quais aprendemos a congelar a fantasmagoria que constitui a nossa experiência real.

A fantasmagoria que constitui a experiência real é uma noção contemporânea da realidade, mas é possível entender o que está sendo dito: o mundo é hipercomplexo, nossa compreensão dos eventos é mediada pela infinidade de estímulos que sofremos todos os dias, e se quisermos dar sentido, ou criarmos um sentido, ou descobrirmos o sentido do que vivenciamos, precisamos de uma linha narrativa. Algo mais sólido do que as relações diárias, algo mais sólido do que as linhas temporais que disparam em todas as direções. Precisamos da linguagem. Precisamos das palavras.

Uma depois da outra.

Se somos escritores, ainda mais: é uma bênção e uma maldição, do que falarei mais tarde. Mas também se não somos. Se somos gente, é isso o que basta para precisarmos da escrita.

Por isso a alfabetização não é um mero exercício escolar, mas de cidadania. Não é dizer, claro, que aqueles que não são alfabetizados são menos gente. É dizer que, ao negarmos a essas pessoas o direito de dominarem a linguagem (e dominar a linguagem não é escrever como o Machado de Assis, mas ser capaz de utilizar esse instrumento de maneira efetiva entre seus pares, no seu meio, na sua realidade), nós negamos a essas pessoas o direito de exercerem a sua humanidade em sua máxima capacidade.

Quando eu escrevi GABRIEL SCHINCARIOL CAVALCANTE pela primeira vez, eu colocava os pés em um mundo que até então era desconhecido para mim: o mundo dos significados. Tudo mudou a partir dali.

A escrita nunca mais saíria da minha vida.

Veja: eu trabalho escrevendo. Sim, eu sou um escritor (e eu não digo isso sem pensar no significado da palavra, porque por muitos anos eu preferiria dizer eu sou alguém que escreve), mas eu ganho a vida escrevendo não enquanto escritor. Ou seja: escritores fazem da escrita o instrumento da vida e da existência, mas não apenas os escritores vivem da escrita. Eu calho de ser um escritor que, além de escrever enquanto ofício artístico, também escreve enquanto ofício profissional, mas em uma área diversa. Meu trabalho consiste em utilizar a linguagem na organização e expressão de entendimentos jurídicos. Para isso, eu precisei me formar em Direito, que é o substrato teórico para compreensão do ordenamento aplicado em cada caso por mim analisado. Mas a formação em Direito seria irrelevante se eu não fosse capaz de conjugar esse conhecimento por meio da língua portuguesa (no meu caso), já que eu preciso colocar no papel, palavra após palavra, a concretização desse conhecimento a partir do caso que me é apresentado e do entendimento da pessoa para quem eu trabalho. Tudo isso é mediado pela linguagem escrita.

Mas esse é apenas um ponto. Desde que somos alfabetizados, não deixamos mais de escrever. É preciso escrever para nos formarmos na escola. É preciso escrever para nos formarmos na faculdade. É preciso escrever para exercemos nossas profissões, qualquer profissão. Do mecânico ao pesquisador, do alfaiate ao professor de literatura. A diferença é o grau de profundidade da escrita, mas ela está sempre lá.

Alguns de nós não vê a hora de não precisar mais escrever. Alguns de nós sofre ao se deparar com a folha em branco. Alguns de nós entra em desespero quando precisa organizar as ideias, que parecem tão simples nas nossas cabeças, na linguagem escrita. Para alguns de nós, a fantasmagoria da experiência real é menos assustadora do que a opressão da experiência escrita.

Seja como for, todo mundo escreve.

Para alguns, no entanto, a escrita não é só meio. É a história toda: começo, meio e fim.

Permita-me citar a Didion outra vez, agora em Rastejando até Belém:

Eles reagem exatamente ao que lhes é dito. Como não acreditam nas palavras — Chester Anderson lhes diz que palavras são para ‘cabeças quadradas’ e que um pensamento que precisa de palavras não passa de uma ego trip -, seu único vocabulário proficiente é o de platitudes sociais. Acontece que me dedico à ideia de que a capacidade de pensar por si próprio depende do domínio da linguagem, e não sou otimista em relação a crianças que, para indicar que a mãe e o pai não moram juntos, se contentam em dizer que são frutos de um ‘lar desfeito’. Eles têm dezesseis, quinze, catorze anos, cada vez mais jovens, um exército de crianças esperando que lhes deem a palavra.

Não sei exatamente quando aconteceu, mas sei que aconteceu, porque sinto os efeitos desse evento todos os dias: a ideia de que a capacidade de pensar por mim mesmo depende do domínio da linguagem está impregnada na minha mente.

Eu preciso entender e para entender eu preciso da linguagem, das palavras.

Em algum momento durante o período em que eu estava na Aeronáutica eu passei a escrever compulsivamente. Ler e escrever compulsivamente. A força do ritmo das palavras me atraía de maneira poderosa, eu era incapaz de parar de escrever frase depois de frase, livro depois de livro. Eu tinha certeza de que algum segredo se escondia na construção das histórias que eu lia, que se eu lesse o bastante, se eu prestasse bem atenção, eu desvendaria aquele mistério.

A verdade é que eu nunca desvendei.

Mas eu descobri outra coisa. Que as coisas ficam mais claras na medida em que você continua escrevendo. Nunca claras demais, nunca evidentes, mas mais claras. Um pouco mais compreensíveis.

Antes da Aeronáutica, eu vivi acompanhado pela sensação de que as coisas estavam prestes a desabar. Em todos os lugares. Em casa, na escola, na rua. Tudo parecia muito perto da catástrofe. E o que mais me desesperava era ver todo mundo ao meu redor tranquilo e confiante na ordem das coisas. Todo mundo parecia saber mais do que eu, ou todo mundo parecia não fazer ideia do que estava por vi.

A sensação, se eu tivesse que definir em uma palavra, era de despertencimento.

Nada era meu. Nenhum lugar era o meu.

E na Aeronáutica esse sentimento não mudou, pelo contrário: foi levado aos seus limites.

Mas eu experimentei pela primeira vez o entorpecimento da escrita. Com a pressão crescendo sobre mim, eu descobri que ao colocar a palavra certa depois da outra palavra certa, a sensação de despertencimento dava lugar a uma sensação diferente, tão poderosa quanto, mas na direção inversa: uma sensação de controle.

Uma sensação de ordem.

A linha narrativa parecia me salvar de mim mesmo.

A linha narrativa ainda parece me salvar de mim mesmo.

Toda vez que eu escrevo — não no sentido da escrita diária do trabalho, como eu expliquei acima, mas no sentido da criação, da organização, da imposição da linha narrativa -, eu busco esse sentimento. Não acontece sempre. Na verdade, acontece muito pouco. Só que basta ele acontecer uma vez para eu querer experimentar de novo. Para eu me dedicar inteiramente a sua reconstrução, a sua reconstituição, porque eu sei que ele está lá. Porque eu sei que o mundo pode parecer estar ruindo, eu sei que as coisas podem não fazer sentido no dia a dia, mas se eu encontrar o ritmo certo, se eu encontrar a palavra certa para completar a frase certa, a desordem vai sucumbir (momentaneamente, é claro) e as coisas estarão nos seus devidos lugares.

Isso nada tem a ver com o sucesso da escrita, ou seja, com o resultado. É verdade que uma boa história geralmente é fruto de um bom processo de escrita. Mas nem sempre um bom processo de escrita resulta numa boa história. Às vezes, a escrita basta em si mesma. Há alguns anos eu escrevi um romance. Um romance que não é bom. Um romance de mais de 60 mil palavras que está guardado em uma gaveta do meu apartamento. Eu sei, ao reler esse romance, que aquela não é uma boa história. A questão é que não me importa, porque a sensação que eu tive ao escrever esse romance foi de arrebatamento, de poder, de força descomunal: eu passei uma semana enfurnado em um apartamento de 30m² escrevendo quatro, cinco horas por dia, sem parar, e as palavras nunca paravam de chegar, eu não ouvia mais nada além do teclado, todo o caos estava do lado de fora e não conseguia atingir o espaço que eu habitava, o espaço em que apenas eu e a escrita existíamos. Ao terminar, eu gostaria muito de que eu tivesse escrito uma obra prima. Não escrevi. E não me importei.

Escrever é reconstruir. É reorganizar.

É uma benção e uma maldição. Porque nem todo mundo tem a chance de experimentar esse êxtase da escrita. E nem todo mundo tem que carregar o fardo de tentar encontrar esse êxtase outra vez.

O método é o mesmo: uma palavra depois da outra. É assim que se escreve. O que, então, faz com que a escrita de uns pareça tão radicalmente diferente da escrita dos outros?

No espaço entre uma palavra e outra, estamos tentando fazer caber tudo aquilo que não conseguimos dizer.

Uns de nós são mais competentes, outros são menos. Mas todos nós temos muita coisa para dizer.

Originally published at https://www.getrevue.co on June 25, 2022.

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gabrielschincariol@gmail.com / www.gschincariol.com

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