SOBRE OS OMBROS

Gabriel Schincariol Cavalcante
2 min readDec 23, 2022

Tem sido uma boa vida esta que eu vivo, não sem tristeza ou dificuldades ou desespero momentâneo, mas uma boa vida, pois passei da idade em que é aceitável acreditar que a felicidade é a ausência absoluta de tristeza e que a medida do sucesso se dá pela quantidade de insucessos. Era mais fácil o sonho infantil, mas o crescimento rumo à maturidade é uma exigência do progresso. Quando menino, queria que a minha mãe vivesse para sempre, porque não concebia uma vida na sua ausência. Ela não vive mais. Mas a noção de vida do eu-menino foi reconstruída: I am my mother’s child. Nas nossas profundas diferenças e insuportáveis semelhanças, ela permanece aqui. Palavra por palavra. Queria uma porção de amigos para afastar a solidão, mas quem eu sou, senão longos silêncios e distanciamento? Longe de ser o centro da festa, a porção virou um pequeno punhado, valioso, que permanece comigo apesar da minha ausência: se não digo muito, e quase não digo, eles sabem que o pouco que digo é inafastável. Palavra por palavra. Os sonhos de menino se confrontaram com o tecido da realidade. Nem tudo se manteve, nem tudo pereceu. Transformou-se. Cumpro as exigências ciente de suas contradições para manter vivo aquilo que não sei dar o nome: alimento-me, cuido-me, protejo-me, distribuo o amor que possuo. O trabalho não me enobrece, porque enobrecimento da alma é fim, não meio, e trabalho é instrumento. Escrevo. Como se fosse a primeira e a última vez, todas as vezes. Cultivo as palavras como se fossem mágicas, porque sei que, na rara sorte de encontrar as palavras certas, a mágica se produz. Olho por sobre os meus ombros e nem sempre me identifico com o que vejo, sou sempre um Outro, daqueles que me cercam e do outro que se forma no caminho, mas não me desespero, nem me assusto: compreendo, com respeito, o sentido do Tempo.

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