SOBRE O AUTORRESPEITO

Uma vez, durante uma temporada de seca, eu escrevi com letras grandes ao longo de duas páginas de um bloco de notas que a inocência acaba quando se tem retirada de si a ilusão de gostar de si mesmo. Apesar de agora, alguns anos depois, eu me maravilhar que uma mente fora de si tenha conseguido, apesar disso, fazer um meticuloso registro de todos os seus tremores, eu relembro com embaraçosa clareza o sabor dessas cinzas em particular. Era uma questão de autorrespeito mal ajustado.

Eu não fui eleita para a Phi Beta Kappa1. Esse insucesso não poderia ser mais previsível ou menos ambíguo (eu simplesmente não tinha notas boas o suficiente), mas eu me senti desencorajada; de alguma forma eu pensava em mim como uma espécie de Raskolnikov acadêmico, curiosamente isenta das relações de causa e efeito que afetavam os demais. Apesar de a situação ter, na época, a mesma tragicidade de quando Scott Fitzgerald não conseguiu se tornar o presidente do Princenton Triangle Club, o dia em que eu não me tornei uma Phi Beta Kappa marcou mesmo assim o fim de alguma coisa, e inocência pode ser a palavra certa. Eu perdi a convicção de que o sinal sempre estaria verde para mim, a agradável certeza de que as virtudes passivas que me garantiram aprovação enquanto criança automaticamente me garantiriam não apenas as chaves para entrar na Phi Beta Kappa, mas também a felicidade, a honra, e o amor de um bom homem (de preferência uma mistura de Humphrey Bogart em Casablanca e um dos Murchisons na luta por procuração2); perdi uma certa fé no poder das boas maneiras, do cabelo limpo, e da comprovada competência na escala de Stanford-Binet. Meu autorrespeito estava ancorado em tais duvidosos amuletos, e eu me vi naquele dia com a perplexa surpresa de quem se depara com um vampiro e não tem um colar de alho nas mãos.

Apesar de o fato de ser empurrado de volta para si mesmo ser, na melhor das hipóteses, uma situação incômoda, como quem tenta atravessar a fronteira com documentos alheios, parece-me agora ser essa a condição necessária para o começo de um autorrespeito real. Apesar da maioria das nossas platitudes, o autoengano continua sendo o engano mais difícil. O charme que funciona sobre os outros não serve pra nada naquele bem-iluminado beco dos fundos em que se presta contas a si mesmo: sorrisinhos vitoriosos não significam nada aqui, nem uma lista bonitinha de boas intenções. Com a agilidade desesperada de um dealer desonesto num jogo de faro que vê Bat Masterson prestes a entrar na partida3, embaralha as cartas marcadas de maneira chamativa, mas em vão — gentileza pelo motivo errado, o triunfo aparente que não envolveu nenhum esforço, o suposto ato heroico do qual se sente envergonhado. O triste fato é que autorrespeito não tem nada a ver com a aprovação dos outros — que são, afinal, enganados facilmente; não tem nada a ver com reputação — que, como Rhett Buttler disse para Scarlett O’Hara, é algo que as pessoas corajosas podem viver sem.

Viver sem autorrespeito, por outro lado, é ser a relutante audiência de um interminável filme caseiro que documenta os insucessos, reais e imaginários, com novas filmagens reunidas para cada exibição. Aqui está o copo que você quebrou num momento de raiva, aqui está o sofrimento no rosto de X; veja agora, nessa próxima cena, a noite em que Y voltou de Houston, veja como você agiu de maneira estúpida. Viver sem autorrespeito é permanecer acordado na cama durante uma noite sem alcançar o leite quente, o anticonvulsionante, e a mão dormente sobre a colcha contando os pecados por comissão e por omissão, as confianças traídas, as promessas subitamente quebradas, os dons irrevogavelmente desperdiçados por preguiça ou covardia ou imprudência. Não importa o quanto adiemos, nós eventualmente nos deitamos sozinhos na desconfortável cama que fazemos para nós mesmos. Se dormimos ou não nessa cama depende, é claro, se nós respeitamos ou não a nós mesmos.

Protestar que algumas pessoas bastante improváveis, pessoas que não são capazes de respeitar a si mesmas, parecem dormir tranquilamente é perder totalmente o ponto da questão, assim como as pessoas que pensam que autorrespeito tem necessariamente a ver com não ter alfinetes para segurar as roupas íntimas no lugar o perderam. Existe uma crença comum sobre “autorrespeito” ser uma espécie de simpatia contra cobras, algo que mantém aqueles que o possuem dentro de um intocado Éden, longe de camas estranhas, conversas ambivalentes, e problemas no geral. Não mantém. Não tem nada a ver com o aspecto das coisas, mas sim a uma outra paz, uma reconciliação privada. Apesar do imprudente e suicida Julian English em Appointment in Samarra e a imprudente e incorrigivelmente desonesta Jordan Baker em The Great Gatsby parecerem candidatos igualmente improváveis para o autorrespeito, Jordan Baker o possuía, Julian English não. Com um gênio para acomodação visto mais comumente em mulheres do que em homens, Jordan avaliou a si mesma, criou sua própria paz, evitou ameaças para essa paz: “Eu odeio pessoas imprudentes”, ela disse para Nick Carraway. “São necessárias duas pessoas para que um acidente aconteça”.

Assim como Jordan Baker, pessoas com autorrespeito têm a coragem de cometer seus erros. Elas sabem o preço das coisas. Se elas decidem cometer adultério, elas não saem correndo, num acesso de consciência pesada, atrás de absolvição das pessoas erradas; nem reclamam indevidamente da injustiça, da não merecida vergonha, de serem citadas para o divórcio. Se elas escolhem não ir trabalhar — digamos que sejam roteiristas — para matarem tempo no bar Algonquin, elas não se perguntam amargamente por que os Hacketts, e não elas, escreveram o roteiro de Anne Frank.

Em resumo, pessoas com autorrespeito exibem uma certa tenacidade, uma espécie de nervo moral; elas exibem o que já foi chamado de caráter, uma qualidade que, apesar de ser aprovada de maneira abstrata, às vezes perde espaço para outros valores mais instantaneamente negociáveis. Vê-se o seu declinante prestígio no fato de que se costuma pensar em caráter apenas em paralelo com crianças sem características especiais e com senadores que foram derrotados, preferencialmente nas prévias partidárias, na disputa por reeleição. Entretanto, caráter — a disposição em aceitar responsabilidade pela própria vida — é a fonte da qual o autorrespeito jorra.

Autorrespeito é algo que os nossos avós, eles o tivessem ou não, tudo sabiam sobre. Eles tinham incutidos, desde jovem, uma certa disciplina, um sentimento de que se vive fazendo coisas que não se quer particularmente fazer, colocando medos e dúvidas de lado, ponderando confortos imediatos em face da possibilidade de maiores, até intangíveis, confortos. Para o século dezenove era admirável, mas não memorável, que Chinese Gordon4 tenha colocado um terno branco e protegido Cartum do ataque do Mádi; não parecia injusto que a maneira de libertar terras na Califórnia envolvesse morte e dificuldades e sujeiras. Em um diário escrito durante o inverno de 1846, uma emigrante de 12 anos chamada Narcissa Cornwall notou tranquilamente: “Pai estava ocupado lendo e não percebeu que a casa estava sendo ocupada por índios até que a Mãe falou sobre isso”. Mesmo sem qualquer indicação do que a Mãe falou, é improvável não se impressionar com todo o incidente: o pai lendo, os índios ocupando a casa, a mãe escolhendo as palavras que não gerariam alarmismo, as crianças devidamente registrando o evento e percebendo a seguir que aqueles índios em particular, “felizmente para nós”, não eram hostis. Índios eram simplesmente parte da donnée.

De um jeito ou de outro, os índios sempre são. De novo, é uma questão de reconhecer que qualquer coisa que se valha possuir tem o seu preço. Pessoas que respeitam a si mesmas estão dispostas a aceitar o risco de os índios serem hostis, de que o empreendimento vai a falência, de que o relacionamento não acabe sendo aquele em que todos os dias é feriado porque você se casou comigo. Elas estão dispostas a investir parte delas próprias; elas podem nunca jogar, mas quando elas jogam, elas sabem quais são as suas chances.

Esse tipo de autorrespeito é uma disciplina, um hábito da mente que não pode jamais ser fingido, mas pode ser desenvolvido, treinado, persuadido. Uma vez me foi sugerido que, como um antídoto para o choro, eu colocasse a minha cabeça dentro de um saco de papel. Na realidade, há uma razão psicológica para isso, algo a ver com oxigênio, para fazer exatamente isso, mas o efeito psicológico por si só é incalculável: é difícil ao extremo se apreciar como uma espécie de Cathy em Wuthering Heights com a cabeça enfiada em uma sacola de mercado. Há condutas similares para todas as pequenas disciplinas, desimportantes em si; imagine manter qualquer tipo de encanto, por comiseração ou carnal, em um banho gelado.

Mas essas pequenas disciplinas são valiosas apenas na medida em que elas representam disciplinas maiores. Dizer que a batalha de Waterloo foi vencida nos campos de jogos de Eton não significa dizer que Napoleão poderia ter sido salvo por um curso intensivo de cricket; organizar jantares formais na floresta tropical seria sem sentido se a luz das velas trêmulas no cipó não evocasse profundas e mais fortes disciplinas, valores instigados desde muito antes. É uma espécie de ritual, que nos ajuda a lembrar quem e o que nós somos. Para se lembrar, é preciso primeiro saber.

Ter esse senso de valor intrínseco, que, para o bem ou para o mal, constitui o autorrespeito é, potencialmente, ter tudo: a habilidade para discriminar, para amar e para permanecer indiferente. A falta desse senso é estar preso em si, paradoxalmente incapaz de experimentar o amor ou a indiferença. Se nós não respeitamos a nós mesmos, nós somos, por um lado, forçados a desprezar aqueles que têm tão poucos recursos a ponto de nos acompanharem, uma percepção tão pequena que se mantêm cegos para a nossa fatal fraqueza. Por outro lado, nós somos peculiarmente dominados por todos aqueles que encontramos, curiosamente determinados a viver — já que nossa autoimagem é inatingível — de acordo com a falsa noção que eles têm de nós. Nós nos lisonjeamos ao pensar que essa compulsão por agradar os demais é uma característica atrativa: um dom para uma empatia imaginária, evidência da nossa disposição em se doar. É claro que nós somos a Francesca para o Paolo, Brett Ashley para o Jake, Helen Keller para qualquer Annie Sullivan: nenhuma expectativa é inadequada, nenhuma função é ridícula demais. Por misericórdia àqueles que não podemos deixar de desprezar, nós assumimos funções destinadas ao fracasso desde o princípio, cada derrota gerando um novo desespero pela necessidade de adivinhar e cumprir as novas exigências que colocarão sobre nós.

É o fenômeno às vezes chamado de autoalienação. Nos seus estágios mais avançados, nós deixamos de atender o telefone, porque alguém pode querer alguma coisa de nós; a ideia de que nós podemos dizer não sem nos afogarmos em autorreprovação é desconhecida nesse jogo. Todo encontro exige demais, destrói os nervos, suga nossa disposição, e o espectro de algo tão pequeno quanto uma carta não respondida suscita uma culpa tão desproporcional que a nossa sanidade passa a ser objeto de especulação entre os nossos conhecidos. Conceder às cartas não respondidas o peso que elas têm, libertar-nos da expectativa dos outros, devolver-nos de volta para nós mesmos — aí reside o enorme, singular poder do autorrespeito. Sem ele, eventualmente se descobre o giro final do parafuso: fugir para se encontrar, e não encontrar ninguém em casa.

  1. Sociedade de honra acadêmica mais antiga dos Estado Unidos.

2. Proxy fight é o nome da disputa entre investidores para conseguirem os votos dos acionistas e, assim, adquirirem o controle de uma empresa. Os irmãos Murchison foram parte da maior “luta por procuração” da história, em que o controle da Alleghany Corporation foi disputado.

3. Famoso jogador de baralho profissional nos EUA.

4. Major-General Charles George Gordon, oficial inglês que protegeu a evacuação da região de Cartum, capital do Sudão, do ataque liderado pelo autoproclamado Mádi, Muhammad Ahmad, em 1884.

gabrielschincariol@gmail.com / www.gschincariol.com

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Gabriel Schincariol Cavalcante

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