Sentir mais para sentir menos

Ou: diante de tanto mal-estar, o bem-estar vem quando não sentimos nada

Gabriel Schincariol Cavalcante
7 min readNov 6, 2023

Este texto foi publicado originalmente na newsletter Eu posso estar errado

Child with a toy hand grenade in Central Park, N.Y.C, 1962 © Estate of Diane Arbus.

Há alguns dias publiquei um pequeno conto de título VIOLÊNCIA BLASÉ no Medium, um relato ficcionalizado de uma experiência recente na rua do meu prédio em São Paulo.

O título veio do texto A metrópole e a vida mental, de Georg Simmel, que desde o momento em que li pela primeira vez ficou impregnado em mim, um reflexo da minha relação com a cidade em que vivo nos últimos sete anos:

Não há talvez fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado à metrópole quanto a atitude blasé. A atitude blasé resulta em primeiro lugar dos estímulos contrastantes que, em rápidas mudanças e compressão concentrada, são impostos aos nervos. Disto também parece originalmente jorrar a intensificação da intelectualidade metropolitana. Portanto, as pessoas estúpidas, que não têm existência intelectual, não são exatamente blasé. Uma vida em perseguição desregrada ao prazer torna uma pessoa blasé porque agita os nervos até seu ponto de mais forte reatividade por um tempo tão longo que eles finalmente cessam completamente de reagir. Da mesma forma, através da rapidez e contraditoriedade de suas mudanças, impressões menos ofensivas forçam reações tão violentas, estirando os nervos tão brutalmente em uma e outra direção, que suas últimas reservas são gastas; e, se a pessoa permanece no mesmo meio, eles não dispõem de tempo para recuperar a força. Surge assim a incapacidade de reagir a novas sensações com a energia apropriada. Isto constitui aquela atitude blasé que, na verdade, toda criança metropolitana demonstra quando comparada com crianças de meios mais e menos sujeitos a mudanças — pp. 15–16.

Esse parágrafo pareceu sintetizar e organizar em palavras um sentimento que cultivei desde o momento em que me mudei para a capital em julho de 2016, a reboque de um processo de luto, vindo morar sozinho no centro da cidade: não há tempo para recuperar a força. O impacto é tão grande, tão repentino e tão contínuo que apenas a atitude blasé nos mantém vivos.

Há na grande cidade uma fonte inesgotável de estímulos. Desde que me mudei, não há um dia em que eu saia do meu prédio sem me deparar com os mais variados graus da existência humana: é impossível caminhar até o metrô sem desviar de alguém que dorme no chão; é impossível não ter que recusar uma mão estendida pedindo um trocado; é impossível não ver uma criança correndo de lá para cá em alguma brincadeira inventada; é impossível não ter que ceder passagem para alguém que está atrasado; é impossível não desviar os olhos da polícia armada; é impossível não guardar no bolso um papelzinho entregue por uma senhora ou um senhor que ficam sob o sol o dia todo fazendo isso, entregando papelzinho, e depois ter que retirar o papel picotado da máquina quando esquecemos o papelzinho no bolso e colocamos a roupa para lavar; é impossível não ter seus nervos estirados brutalmente.

Nos primeiros dois ou três anos eu me perguntei como era possível viver assim, diante desse cenário, sem se impactar profundamente. Nos anos seguintes, acho que descobri: deixando de prestar atenção.

Mas nós nunca deixamos de prestar atenção, deixamos?

Tentamos deixar para lá, mas não deixamos. O corpo estirado no chão ainda é um corpo estirado no chão e o corpo estirado no chão nunca é só um corpo estirado no chão: é uma pessoa, com passado, presente e futuro estirada no chão, e sobre esse passado, presente e futuro nós pulamos para seguirmos nosso rumo.

Entro na estação do metrô e vejo dezenas de rostos pela primeira e última vez. Dividimos o mesmo espaço e nunca nos reconhecemos — estamos sempre de passagem um pela vida do outro, sem nos determos mais do que alguns segundos. Passado, presente e futuro. É melhor que não nos detenhamos: temos nossos próprios problemas para resolver. Mas encontro esses rostos e esses rostos me encontram e desse encontro nós nos perdemos para sempre.

O passeador de Baudelaire fazia da multidão sua parceira: a massa como parte de si.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem — Baudelaire em As Multidões (pequenos poemas em prosa).

Mas a multidão contemporânea não é passível de comunhão: ela é anônima, intransponível, oca em si mesma. A multidão não é a soma de tudo o que somos: é a soma de tudo o que não somos. A multidão é onde nos escondemos, onde deixamos de ser. Por onde passamos sem nunca deixar nada, sem nunca levar nada. A multidão contemporânea é o encontro dos sinais trocados, a soma que sempre termina em zero.

Diante de tantos estímulos, precisamos de um descanso. Precisamos desestimular a nós mesmos. Um pouquinho de silêncio, por favor, como uma placa sobre uma biblioteca sem livros. Vocês não podem calar a boca por um momento?, é o pensamento que atravessa nossas mentes quando não conseguimos escutar mais nada, só esse ruído das vozes somadas, as vozes da gente sem rosto e sem história.

As vozes em que o passado, o presente e o futuro se confundem como além-do-tempo, como uma peça que não se encaixa mais no quebra-cabeça.

Assim eu me senti quando experimentei a história que deu origem ao conto VIOLÊNCIA BLASÉ. Eu chegava em casa, saindo do metrô, com uma mala na mão e uma mochila nas costas. Na rua do meu prédio um homem corria, gritando, tomado pelo desespero, e outros dois corriam atrás segurando um pedaço de pau. O homem que corria na frente caiu e foi espancado pelos outros dois. As pessoas na calçada pararam para olhar. As pessoas que estavam no mercadinho saíram para olhar. O homem era espancado e xingado a menos de dois metros de mim.

Chutavam sua cabeça e acertavam o pedaço de madeira em suas costas e ele gritava de dor.

Tentei intervir. Os agressores olharam para mim e o homem saiu correndo. Eles correram atrás. Ele caiu outra vez. Apanhou de novo. Ficou sangrando no chão, até os agressores cansarem da violência. Enquanto sumiam no fim da rua, uma mulher ajudava o homem a se levantar, deixando várias gotículas de sangue pelo caminho. Uma a uma as pessoas da multidão voltaram para as suas vidas, escondidas na rotina.

Tive uma noite ruim aquele dia. Mas foi só mais uma noite ruim dentre tantas outras.

Na manhã seguinte, desci no mercadinho comprar pó de café, cumprimentei a moça do caixa que vejo quase todos os dias há sete anos e cujo nome desconheço. Percebi duas coisas: são sete anos aqui, no coração da cidade. São sete anos como cliente desse mercadinho, são sete anos sendo atendido por essa moça.

Ela não sabe o meu nome e eu não sei o dela. E sobre o homem espancado ninguém disse uma só palavra.

Peças que não se encaixam.

O anonimato da cidade é uma armadura — o homem espancado vira personagem de um escritor qualquer, a mulher passa as compras, eu tomo meu café. Ninguém sabe o nome de ninguém: corpos estirados no chão, sem nome, sem passado, sem presente, sem futuro.

Não há o que sentir pelo que não existe. Testemunhamos dor a todo instante — Reich diz que a dor é preferível à analgesia emocional. Mas o resultado dessa contínua exposição ao estímulo da miséria e da dor vai no caminho oposto, como escreve Susan Sontag em Estados Unidos, visto em fotos, de um ângulo sombrio:

Sentir mais nos faz sentir menos.

Estamos tão familiarizados com o horrível (não é horrível a fome? não é horrível dormir no concreto? não é horrível a bomba que cai no meio da cidade? não é horrível a violência blasé?) que sofremos uma subtração da personalidade: uma pseudofamiliaridade com o horrível reforça a alienação, tornando a pessoa menos apta a reagir na vida real (Sontag, p. 53).

A alienação nos protege, mas é uma falsa proteção. O casulo do embotamento emocional vira um casulo vazio — não há mais nada a ser protegido. Vamos gradualmente nos afastando de nós mesmos, virando simulacros das nossas personalidades, reprodutores miméticos da cultura pop vigente, especializados em olhar na direção oposta, em fingir que não vemos, em recalcarmos aquilo com o que não queremos (não podemos) lidar.

Mas se há algo que podemos esperar do recalque é que ele não permanecerá recalcado para sempre.

Podemos sentir mais para sentir menos, até não sentirmos nada.

E quando estivermos habituados com o nada, o que faremos com toda a dor que chegará para nos assombrar? Quando todos os rostos da multidão passarem a chamar o nosso nome de uma só vez?

The apparition of these faces in the crowd:
Petals on a wet, black bough.

View Down Subway Car with Accordionist Performing in Aisle, New York City. © Walker Evans Archive, The Metropolitan Museum of Art.

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