QUEM DÁ ORDENS AO JUIZ?

Gabriel Schincariol Cavalcante
14 min readFeb 1, 2019

19–5–18, sp. este é um conto que escrevi para um concurso literário. não ganhei nada.

Há muito ele aprendeu a mandar, e também levou muito para aprender, pois, veja, sobre mandar há essa coisa, não é natural como se pensa, simples assim, sair distribuindo ordens, faça isso, faça aquilo, esse tipo de coisa, não, não é simples assim, para mandar é preciso aprender e aprender a mandar é um processo que exige tempo e alguma predisposição; têm aqueles que jamais aprendem, incapazes cronicamente de emitir um mandamento, tentam a vida toda mas estão sempre, no fim, pedindo; ele demorou, mas aprendeu, e ainda mais demorado do que aprender a mandar é desaprender, o que, na verdade, nunca vimos acontecer, talvez seja possível, mas não houve uma primeira vez. Ele aprendeu há muito tempo, depois de muito tempo, e aprendeu direito. Só que agora ele aprende uma lição diferente, que logo se revelará.

Estava no seu sangue, vem de uma linhagem de homens que mandavam. A diferença é que sua palavra era oficialmente investida de poder, enquanto a do pai e do avô contavam somente com a confiança em proferir a ordem. O avô ordenava nas colheitas e o pai na banca do jogo do bicho. Ele, não. Ele mandava é por trás de uma mesa envernizada. Na família Trabuco Rosado havia um terno de cor bege, não se sabe se de origem ou de gastura, e o pai do avô usou pela primeira vez lá nos idos do fim de oitocentos quando se casou com Geralda Maria da Conceição, que se tornou Geralda Maria Trabuco Rosado, e deram origem ao avô, Eutálio Trabuco Rosado, e o avô Eutálio se meteu no mesmo terno ao se casar com Regina Batista, depois Regina Trabuco Rosado, e deram origem ao Renato Reinaldo, nome duplo de artista que viria ser a seu modo, o pai, e é claro que o pai também se meteu no terno ao se casar com Glória Cristina, a única que permaneceu com o mesmo nome, assim, só Glória Cristina, que, segundo ela, era ela em si mesma, nada mais, e quem nasceu foi ele, Basílio Trabuco Rosado, ou Doutor Basílio. Os Trabuco Rosado nasceram sabendo da pobreza e por isso seus corpos saíram sempre iguais, a mesma altura, bisa, avô, pai. Basílio, quando ainda era só Zilíco, menino novo, desafiou a marca da besta e espichou. Os ascendentes eram largos e baixos, pobres e duros. Ele foi para cima, fino de tudo, parecendo vareta de pau. É que Zilíco, ainda sem saber que seria Doutor Basílio, veio ao mundo em forma de ponto de inflexão, a mudança brusca que derruba as coisas, cai máscara de oxigênio, deixa a gente zonzo da cabeça. Cresceu e afinou e, para desgraça silenciosa dos pais e do avô, não se casou. Era outro seu caminho, ele dizia, sem explicar bem qual caminho seria esse. Só que era outro, e o pai, na banca do jogo do bicho, coçava os bigodes finos com as pernas cruzadas e os pés balançando nos sapatos brancos lustrados. Glória Cristina fazia o sinal da cruz e pedia para Deus que guardasse o menino no seu caminho fora da curva. É que meu caminho é outro, mãe, e ela assentia, com o peito doído. E o avô só queria saber de uma coisa, que era quando é que o menino ia usar o terno da família.

Chegou o dia, porque ele trilhou mesmo outro caminho. Vestiu o terno bege, curto nas pernas, com as meias aparecendo, curto nos braços, largo nos ombros, e foi caminhando pelo corredor, e parou em frente a porta de madeira com seu nome inscrito na plaqueta de metal. Juiz de Direito Basílio Trabuco Rosado. Seu primeiro dia, vestindo aquele terno desgraçado, e ele entrou nervoso na própria sala e se sentou na própria cadeira e colocou os cotovelos sobre a própria mesa envernizada e sentiu um medo tremendo de tudo aquilo que era dele e ele não sabia como tomar posse. Ali virou Doutor. E ali aprendeu a mandar.

Desse dia para hoje faz muito tempo e o terno está guardado para o enterro final, porque não teve outro Trabuco Rosado depois de Basílio e a tradição se amoldou à dureza do destino, mas isso é papo para adiante. Agora está velho, deitado sobre a cama, sentindo a bexiga implorar pelo alívio, e pensando em como diabos vai chegar até o banheiro. Metade do seu corpo, o lado esquerdo, não serve para mais nada. Obstruiu-se um vaso na sua massa encefálica e ele caiu de cara no chão, deslocando o maxilar e quebrando um dente, firmando na sua feição essa expressão de contrariedade de filme de velho oeste, e quando a empregada o encontrou mais de hora depois, ele tentava mover o maxilar fraturado, balbuciando qualquer coisa, de certo que era uma ordem, mas ela não entendia nada e ele não se fazia entender. O lado esquerdo se perdeu e agora ele, sozinho, precisava mijar, chegar até o banheiro, mas a ordem que ele emanava era ignorada pelo seu corpo. E isso, para um homem feito de mandar, era difícil de compreender. Essa era a nova lição.

Logo no começo ele ainda era jovem e tímido, seu poder vinha do que precedia seu nome no papel, só que lhe faltava a experiência. Dissemos antes, mandar se aprende e se aprende devagar. Ele teve as primeiras aulas em casa, agora era a prática e não se sabia como ele ia se sair. Entrou a prática pela porta na pessoa de Osmeire de Assis, e alguns minutos depois veio Porfírio de Assis, marido de Osmeire, os dois para a audiência, e o Zilíco, não acostumado ainda a ser Doutor, leu os autos do processo e Osmeire dizia ter medo de morrer nas mãos do marido, e o marido não negava que ia matar Osmeire, que ele dizia ser muito afoguetada. Ela queria ficar longe e manter Porfírio longe. Ouviu os dois, pensou bem, como é que decidia um negócio daquele, e então se lembrou da regra de ouro que dizia que em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher, e, não tendo outra ideia melhor, resolveu adotar o conhecimento popular, e disse para Osmeire que ela que se aprumasse e se botasse no rumo, e obedecesse ao marido, que é como as coisas são, que nada de mal viria a acontecer, e a mulher não chorou mas queria chorar, estava claro que as lágrimas vieram até os olhos e só não escorreram porque o ódio era maior. Fato é que os dois saíram pela porta e nunca mais voltaram e isso para Zilíco, agora se tornando, mesmo, Doutor, significava o fim do problema, como muitas vezes para frente ele encararia os efeitos de suas decisões, mas o que a gente sabe e ele não é que naquele mesmo dia à noite Porfírio espancou Osmeire por mais de hora e deu com a cabeça dela no chão e ela não acordou mais e Porfírio passou uns dias no cárcere, mas logo saiu porque o promotor se compadeceu do homem que alegou ser traído e assim tinha perdido a razão.

Sobre o terno, o terno ficou em posse de Basílio, porque o avô Eutálio e o pai Renato Reinaldo confiavam que, sob o título bem-aventurado de Doutor, logo ele iria se ajeitar e encontrar uma mulher, ou ser encontrado por uma mulher esperta, o que dá quase no mesmo. Só Glória Cristina que dizia: esquece isso, Rei, que Basílio não vai casar, a minha esperança eu perdi quando fechei os olhos e sonhei com meus netos e meus netos não eram mais do que um punhado de livro. Mas o pai não dava o braço a torcer e a mãe, ciente da sua razão, não teimou, que o tempo haveria de confirmar suas palavras. E assim foi, já que o Doutor Trabuco Rosado não aparecia nunca com mulher alguma, e toda primeira segunda-feira do mês ia para o seu gabinete vestindo o terno bege, como uma promessa assumida em silêncio perante seus antepassados, e com o terno bege decidia as causas mais importantes, guardava todas para a primeira segunda-feira do mês. Houve a vez em que dois meninos roubaram o mercado usando cada um, um facão, mas o que surpreendeu todo mundo foi o que eles levaram embora, três sacos muito cheios de pão, uma peça grande de carne da nobre, presunto, queijo, duas garrafas grandes de refrigerante, salsicha e copo descartável. Meteram as camisetas na cara e usaram as roupas longas para não serem notados e na cabeça dos funcionários só passava uma confusão danada sobre que raio de assalto era aquele. Enfim. Um dia depois dona Beatriz Mendonça, mãe solteira de dois meninos e uma menina, abriu o portão da sua casa e distribuiu cachorro-quente e refrigerante para a meninada e carne assada para os adultos que passassem, e perguntada que ocasião era aquela, só dizia que era a retribuição pelo que Deus havia dado. Só que Deus não havia dado nada e entre os que passaram na frente estava Jairo Cintra, dono do mercado, conhecido de Renato Rei, jogador inveterado do bicho, apostando sempre no gato, e ele fez a soma de dois mais dois e o quatro apareceu bem claro na sua cabeça. Chamou a polícia e não adiantou dona Beatriz dizer que, ao chegar em casa, encontrou tudo no canto da cozinha e tinha certeza de que era coisa do Senhor, depois de tanta reza para encher a barriga dos três filhos, e por ter recebido além da conta, resolveu dividir, como manda o Livro. A polícia pegou os dois meninos e levou para a cela e lá eles ficaram, acusados de roubo e pilantragem, e a mãe foi junto por receptação. Isso foi na primeira terça-feira do mês e o assunto tomou a cidade, quem comeu o churrasco da dona Beatriz negou, temendo ir junto para a cadeia, a criançada não fazia média e dizia que o cachorro-quente era uma delícia, e todo mundo apostava no destino da mãe e seus dois filhos, enquanto a menina ficou assistindo tudo de fora, acudida por uma vizinha. Era caso grande, caso sério, só podia ser resolvido de terno bege. Na próxima primeira segunda-feira, Doutor Trabuco Rosado nada decidiu. Entrou em silêncio, leu tudo em silêncio, saiu em silêncio. Na outra, mandou chamar mãe, filhos, convidados, dono do mercado. Ouviu um por um. Jairo Cintra mandou um abraço para o pai do Doutor Basílio e disse que, daquela vez, ia dar gato. Mais uma segunda-feira e nada resolvido, trancou a porta atrás de si e foi embora. Teve que esperar a terceira para tomar a decisão: solta a mãe, que não fez nada além de cozinhar bem e ter fé burra, e manda os filhos trabalharem de graça para o Jairo até dar o gato no jogo do bicho. O resultado foi um ano e meio depois, bem na primeira segunda-feira do mês, e os meninos viraram bons vendedores e lá permaneceram até depois.

Essa é que veio a ser a função do terno. Encontrar-se com a Justiça e mandar as ordens mais difíceis. Até que Eutálio ficou de cama e a morte veio rapidinho, numa viagem curta, pegá-lo de uma vez. Antes de morrer, já sabendo que ia, disse que se não ia ter um Trabuco Rosado novo para vestir o terno, ele vestiria no caixão. Renato Reinaldo olhou sério para o pai, sem questionar. Zilíco encarou o avô e disse: e a Justiça, como fica? E o avô esclareceu tudo: fica justa, como sempre, eu visto no caixão e antes de me botarem terra abaixo, vocês tiram e podem me deixar até de cueca que lá eu não sinto frio, e depois meu filho Rei fará sua última viagem com essa mesma roupa, até o dia em que você, Basílio, vestirá esse terno fora de uma segunda-feira e com ele irá ser coberto de terra. Os dois acataram a ordem do avô e no dia seguinte ele estava com o terno bege, perfeito para o seu corpo achatado, dentro do caixão enquanto o mundo todo de conhecidos passava para dizer adeus.

Agora Basílio não vestia terno, era um shorts curto de algodão e uma camiseta branca também de algodão, substituindo o pijama de seda, que tinha muitos botões, impraticáveis para quem tinha metade do corpo desligada. Seu corpo fino ficava evidente, assim, exposto, as canelas ossudas, as coxas magras, os dedos dos pés retorcidos, as costelas aparentes, os dedos finos, o ombro estreito, e ele ali, sobre a cama, sentindo a bexiga apertada, respirava com dificuldade, preparando-se para se pôr de pé. Ah, se eu pudesse colocar um cumpra-se, ele pensava, um cumpra-se e a serventia me botava em pé, abaixava esses shorts, e ainda balançava o bilau quando eu terminasse. Mas não havia cumpra-se. Era ele estendido sobre a cama grande, próxima da parede onde um apoio havia sido instalado, e ele esticou a mão direita até o ferro, envolveu o corrimão com os dedos e usou toda a sua força para tirar seu corpo do colchão. Ergueu-se devagar, e quando ficou sentado já se sentia exausto, os ossos da mão direita doendo, a mão esquerda formigando, inútil e surda à qualquer orientação. Faltava ficar de pé. Faltava ficar de pé e chegar até o banheiro. Ficar de pé, chegar até o banheiro, levantar a tampa da privada, abaixar a calça e mijar. Ah, um cumpra-se.

Quando saiu tarde do gabinete e tinha um compromisso marcado, o Doutor se postou em frente ao elevador privativo e esperou. Olhou no relógio, largo no pulso magro, e viu o ponteiro dos segundos se mover, sem que o elevador desse sinal de que estava vindo. Pousou a pasta de couro ao lado do corpo e cruzou os dedos à sua frente, olhando fixamente para a porta do elevador. Conseguia ouvir o ponteiro dos segundos no seu relógio. Passou a contar cada movimento dos ponteiros e quando chegou em cento e trinta e nove, sua contagem foi interrompida pela jovem voz de um estagiário cujo nome desconhecemos. O menino disse Doutor, tem que apertar o botão pro elevador vir, a dona Irene não veio hoje. E a voz jovem reproduziu um riso jovem enquanto seu dedo jovem tocava o velho botão do elevador, que, pouco depois, abriu suas portas diante deles. O Doutor não disse nada, só entrou e encarou os números no painel. Não apertou nenhum. Térreo, Doutor? E o estagiário apertou o Tê, e quando chegaram no térreo o Doutor saiu caminhando sem dizer uma só palavra e no outro dia, ao chegar na porta do prédio, o estagiário foi avisado que não poderia entrar.

Onde estaria dona Irene agora? Não pode um juiz ter que chamar o elevador, isso é coisa clara e óbvia para qualquer um. Mas hoje Basílio sabe que, não importa quanto ele espere, a porta não vai se abrir só pela sua vontade. Não importa o quanto ele espere, ele ainda vai ouvir o som do ponteiro dos segundos e nenhuma jovem voz irá interromper a contagem, o tempo só irá passar, e passar, e passar, até ele molhar as próprias calças e a cama.

Renato Rei, que não era doutor, mas era artista, não deu tempo para morte lhe aleijar as pernas e tirar seu sorriso. Ficou vivo enquanto ficou vivo, até que morreu. Já estava aposentado do jogo do bicho, porque o filho havia dito, não como Zilíco, mas como Doutor Basílio, que não havia jeito do pai continuar na contravenção com o filho assinando ordem para prender todo tipo de gente, por todo tipo de crime. O filho disse que não queria ter que ver chegar o dia em que, à sua frente, estaria o mandado de prisão do pai. E o pai teve a sabedoria de não perguntar para o filho se ele assinaria o mandado, porque pai sabe o filho que tem e ele, portanto, sabia da resposta, mas saber da resposta e ouvir a resposta são coisas completamente diferentes. Por isso ele aquiesceu e concordou que era hora de pôr o chapéu na mesa e deixar o jogo nas mãos de outrem. Aposentou, mas não perdeu o costume de estar na padaria todo dia de manhã, sentado à porta, tomando um copo com dois dedo de café e um de pinga, voltando para casa só no almoço, o que era imposição de Glória Cristina: marido meu come em casa, e se não come, não é meu marido. E lá estava ele, com o copo na mesa, ainda intocado, e permaneceria intocado, porque aos setenta e um anos o coração de Renato Reinaldo parou de bater e ele arregalou os olhos e percebeu o que estava por vir, sorrindo em seguida, caindo sobre a mesa com uma expressão divertida, e o café com pinga escorrendo e gotejando no chão. Quando avisaram em casa o que havia acontecido, Glória Cristina apagou o fogo, porque não haveria almoço naquele dia. Renato Rei tinha partido dessa para uma melhor. Doutor Basílio foi avisado e engoliu em seco. Voltou para casa, pegou o terno, foi até a funerária, olhou para o rosto sorridente do pai e o medo que ia crescendo dele desapareceu. Veio um vazio e uma tristeza, mas o medo foi embora. O vazio ficaria lá para sempre, na ausência de Renato Rei, mas Basílio sabia que o pai havia tomado a morte para uma dança a dois. Os rapazes da funerária vestiram o defunto com o terno e Basílio só o viu de novo no velório. Estava ao lado da mãe, que tinha o corpo coberto de preto, e ao olhar para o pai, bem aprumado naquele velho terno bege, viu a semelhança com o avô, os mesmos traços, o mesmo corpo, e nada ali reconheceu como seu. Se olhasse para o espelho, não notaria nada igual. Virou-se para a mãe e nela, sim, reconheceu os próprios traços. Ela encarou o filho com os olhos secos de quem tanto chorou até findarem as lágrimas, e Zilíco sorriu para ela, que balançou a cabeça, apertou a mão dele e disse, mais para dentro do que para fora, que Deus estava bem acompanhado, mas que cuidasse duas vezes mais da própria carteira.

Glória Cristina também já se foi, com seu nome único, e o último da estirpe dos Trabuco Rosado precisa de todo jeito mijar. Com a mão firme em volta do corrimão fixado na parede, Basílio jogou o corpo para trás, tomou impulso, e se puxou para frente, desdobrando os joelhos, apoiando os ombros na parede, e ficando de pé. Sentiu a cabeça girar e fechou os olhos por um instante. Devagar, caminhou, com a mão no corrimão, até o final da cama, arrastando o pé esquerdo. Chegou até as muletas, encaixou o braço esquerdo, duro e rígido, em uma, largou o peso do corpo em cima do apoio e pegou a outra muleta com o braço direito. Agora era ir até o banheiro, com calma. Reproduzir tudo o que fez durante a vida: dar ordens. Dar ordem ao braço direito, à perna direita, fazer o corpo se mover de maneira coordenada, organizar cada passo, cada movimento, buscar o equilíbrio, listar as forças e usá-las com adequação. Pôs então a muleta direita à frente, depois a esquerda, depois a direita, tudo bem devagar. Era só dar a volta na cama, escorar-se na parede e seguir até o banheiro. A ponta da coberta, porém, havia caído no chão enquanto ele dormia, e agora estava ali, toda embolada, e a muleta esquerda ficou presa no tecido, porque Basílio não conseguia erguê-la o suficiente do chão para passar por cima. Isso diminuiu ainda mais o seu ritmo. Teve que dar um passo para trás e quase caiu de bunda. Levou uns bons cinco minutos até se desvencilhar da coberta e seguir seu caminho. A próstata já não funcionava como devia e ele sentia a queimação na bexiga e no pênis. Quando chegou na porta do banheiro e viu a privada, viu seu cérebro pregar nele mais uma peça, a segunda desde o dia em que o sangue parou de circular por causa da obstrução. A vontade de mijar ficou incontrolável, diante da linha de chegada, como a fome que aumenta diante o banquete, a água na boca ao sentir o cheiro da comida de Glória Cristina, a ereção instantânea ante o corpo nu. O calafrio lhe subiu pela espinha e tomou a atitude óbvia para qualquer homem, que é correr, mas Basílio já não era homem, era meio homem, e ao mover com pressa a muleta direita, viu a base escorregar no piso frio do banheiro e não teve tempo de se recompor, nem equilíbrio para permanecer de pé. Caiu sobre a muleta, tentando se apoiar com o braço direito, ficando estatelado no chão.

Ali sentiu uma dor terrível no ombro, e também o calor no meio das pernas. À sua volta, no azulejo branco, formava-se a poça de urina, amarela e com cheiro forte, escorrendo pelos seus shorts, molhando suas pernas e sua camiseta. Com o ombro fora do lugar, mijado em seu banheiro, a poucos centímetros da privada, ele só pensou em uma coisa. O relógio já marcava para mais de duas da manhã da terça-feira e era hora de um Trabuco Rosado vestir o terno bege pela última vez, pois Doutor Basílio havia decidido morrer antes que não pudesse decidir mais nada, afinal, ninguém nesse mundo dá ordens ao juiz.

--

--

No responses yet