O QUE É QUE DÁ NO PÉ DE MANGA

Gabriel Schincariol Cavalcante
4 min readApr 14, 2021

Trecho do conto presente no livro Um mundo em que existem baleias (Patuá, 2021), disponível aqui para compra

É que estava lá antes deles, antes mesmo da casa subir suas paredes e seu telhado, estava lá em pé com suas raízes por baixo do chão e suas folhas verdes, e quando vieram e cercaram o lote, e depois vieram e subiram as paredes e colocaram o telhado, permaneceu lá, ao fundo, observando tudo no seu silêncio natural.

Assim foi que quando eles se mudaram a árvore já estava lá, com suas plantas verdes fazendo uma sombra mais ou menos no quintal, o suficiente para deixar um dia quente mais fresco.

Com seus pés descalços ela corria para fora da casa e se sentava com as costas firmes no tronco da árvore, erguia a cabeça para o céu e via a luz vindo por entre as folhas, chegando a ela e chegando ao chão cheia de sombras, dançando conforme o vento ventava e conforme as folhas se mexiam, e esticava a mão para que a luz e as sombras ficassem sobre o seu corpo, sobre a sua pele, dançando também sobre ela, as costas firmes no tronco da árvore, a bunda sobre a grama em que caminhavam ordenadas as formigas. Passava um enorme tempo ali. Pegava alguns galhos menores e traçava caminhos para as formigas, cavoucava a terra e usava os galhos como pontes, e observava bem atenta, não muito perto, para não assustar, nem muito longe de onde não poderia ver, como as formigas agiriam, se iriam, enfim, usar o caminho que ela trilhou, ou se fariam a própria vontade de irem por onde desse na telha, e as formigas iam seguindo seus caminhos, sempre ordenadas, uma outra ou outra saía da linha e logo voltava, e quando finalmente conseguia que as formigas usassem seus galhos para irem daqui ali, comovia-se, batia palmas, queria chorar, agradecer as formigas uma a uma, e se levantava com enorme cuidado para não pisar em nenhuma, saindo com os pés descalços de volta para casa. Da janela do seu quarto via o quintal, e no quintal via a janela, e pediu para que a sua cama ficasse do lado oposto dessa janela para que, deitada, nos dias cansativos, pudesse ficar com os olhos voltados para o lado de fora, vendo o que a árvore fazia.

O pai sugeriu que ela, usando uma faca, marcasse seu nome no tronco da árvore, e quando ela respondeu Mas pra quê?, ele disse Pra que no futuro quem morar aqui saiba que você também morou, e ele não entendeu de imediato o que casou nela aquele choro convulsivo de luto, e tentou alcançá-la antes que ela batesse a porta em direção ao quintal para se sentar junto a árvore. Achou melhor esperar e ficou olhando pela janela. Esperou bastante. Olhou. Pensou nas palavras e saiu atrás da filha.

Minha filha, disse, e ela continuou com o rosto apoiado nos braços, que abraçavam os joelhos magricelos. Minha filha, o que foi que eu fiz?, e ela ergueu os olhos para ele, vermelhos e inchados, e respondeu Eu não quero ir embora, e ele disse Mas nós não vamos embora, e ela respondeu Você disse que outra família vem pra cá, e ele, pensando antes de falar, disse Não, não, filha, você não entendeu, só lá na frente, no futuro, quem sabe, era só pra você deixar a sua marca. Ela escondeu o rosto de novo nos braços.

Ele se sentou ao lado da filha, encostando no tronco da árvore.

Esperaram em silêncio, confabulando.

Então nós não vamos embora?, ela perguntou.

Não, não vamos, ele respondeu.

Ela silenciou.

Quer marcar o seu nome, para a árvore ser só sua?, e ela disse Não, pai, vai machucar a árvore. Ele deu risada e foi se levantando. Pegou uma frutinha que saía em um dos galhos. Arrancou dali e mostrou para ela Olha, tá nascendo. Ela aproximou o rosto da frutinha e perguntou O que é que é?, e ele disse Não sei, não, um pé de manga, talvez. Não sabia nada sobre árvores. Viu a esposa passar na janela da cozinha e gritou Essa árvore é uma mangueira?, e a esposa respondeu E eu lá sei? Ele disse, olhando para a frutinha, Deve ser. Estava voltando para dentro de casa quando sentiu a filha puxando sua camisa com a mão cheia de terra. Pai, ela disse. Oi, filha, ele respondeu. Cochichando, em razão do segredo que confidenciava, ela revelou Eu nunca comi manga. Ele riu, riu bastante, mas parou de rir ao notar que ela não ria junto.

Mas não é possível, ele disse.

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