MEU IDEAL SERIA FAZER AMIZADE COM PASSARINHO
Rápida consideração sobre Rubem Braga, Valter Hugo Mãe e a escrita
Sempre achei beleza nessa coisa de conhecer os passarinhos pelo nome, de ver o bicho voando, apontar e dizer do que se trata, se é canário, se é rolinha, só pela cor ou pelo bater de asas ou pelo cantar. O passarinho engaiolado, no entanto, me traz angústia, uma vontade de chorar que me faz ir para o outro lado pensar nas coisas simples da vida, as coisas que resignam, como a miséria e a tristeza. Essas coisas me trazem raiva e raiva não me dá vontade de chorar, passarinho preso me traz é tristeza.
De todo jeito, nunca soube nada de passarinho. Gosto deles assim, cantando lá e eu aqui, olhando. Também nunca quis escrever. Não via razão nem havia vontade. Foi durante alguns dias mais sombrios em que as horas passavam bem mais devagar do que de costume quando precisei calar todo o ruído do lado de fora e encontrei na biblioteca um remédio para o intolerável.
As crônicas surgiram para mim como o inesgotável, a oportunidade de tomar o cotidiano na mão e fazer dele algo maior, fazer dele algo significativo, fazer dele algo mais do que a efemeridade de um dia após o outro. Comecei com Mário Prata e suas cem melhores crônicas (que são, na verdade, cento e vinte e nove). Li uma após a outra feito um sedento desesperado. Li linha após linha podendo me transportar para seja lá onde for. Quando terminei, li o livro de crônicas do Vinícius, em que duas, em especial, fincaram raíz no meu coração ignorante:
Uma viola-de-amor, que me veio feito um manual de ação para o resto da vida, dizendo “ Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranquilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para eu cresça sempre no sentido de Tempo…”, e A transfiguração pela poesia, “ Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento. Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia — a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o chão ainda aberto em crateras”.
O efeito criado em mim, para além da sutileza de Vinícius e da habilidade de Mario Prata, se dava em especial pela possibilidade de ir além e fazer o peito bater em outro rítmo que não o da violência e da guerra, mas da sensibilidade. Eu me sentia como um todo transfigurado.
E veio Rubem Braga. Rubem Braga criava passarinhos, sabia tudo dos passarinhos. Escrevia como cantavam os passarinhos, indo assim, ao ponto, seja como correspondente de guerra, seja como cronista de jornal. Eu não tinha predisposição para palavras ternas e, contudo, as palavras ternas que eu lia me transformavam e faziam com que a minha cabeça estivesse em plena revolução.
Foi nesse estado de espírito que li Meu ideal seria escrever, a crônica de Rubem Braga que nunca mais se afastou de mim. É a história do cronista que ao avistar uma moça triste e doente, deseja mais do que tudo para ela escrever uma história muito da engraçada, só para tomar dessa moça um sorriso.
Ela é curtinha e não merece que eu a recorte para colacionar trechos específicos. Ela deve ser lida na sua inteireza. Não custa mais que cinco minutos. Volto já:
“Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse, rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! eu não gosto de prender ninguém!”. E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”.
E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”.
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro”.
Lendo de novo, a crônica não traz em si nada demais, não traz em si uma enorme revelação, uma enorme invenção do estilo e do tema. O que ela traz em si era algo que eu passaria a desejar, desesperadamente, experimentar: a capacidade de escrevendo conseguir promover um pequenino abalo, daqueles que, no todo, são imperceptíveis, mas que, no seu centro, na sua raiz, trazem consequências inafastáveis.
Eu queria uma história tão engraçada. Uma história tão triste. Uma história tão dramática. Uma história infinita em si. Eu queria tomar a história nas minhas mãos e fazer dela um retrato de mim, um retrato de mim enquanto criatura do Tempo. A moça triste e cinzenta é aquela que mora nas profundezas cinzentas do meu coração.
Desde então tenho escrito minhas próprias histórias, que evoluem por si só. No início eu emulei o estilo de quem eu admirava e com quem eu aprendia, livro após livro.
Escrevia pequenas historietas de cotidianos simples, pintando com cores bonitas o que corre desapercebido. Assim:
“Quero uma vidinha bem simples. Ah, pois sim, uma vidinha bem simples. Por que dinheiro e luxo enchem uma casa, mas paz e sossego enchem o coração. Eu quero uma casinha bem simples, sim. Uma sala com um sofá para deitarmos no fim da tarde de domingo, cansados, e ligarmos a TV sem prestarmos atenção enquanto você acaricia meu pescoço e eu te faço cafuné. Uma cozinha com cheiro de café, com cheiro de você, em que eu me sente toda manhã lendo o jornal, e fique triste com tanta tragédia, olhe seu rosto e fique feliz com tanta beleza. Quero um quarto bem simples, com uma cama grande onde nós dois possamos nos deitar e sonhar e rir e amar e, quando o sol vier bater na janela, nós possamos chamar de lar. Quero um carro bem simples, sim. Um carro que dê problema de vez em quando, que fará parte da família e tenha como propósito me levar até você e te trazer até mim, e então neste caso ele nunca dará problema, pois é um carro que sabe que a saudade dói e gosta de nos ver sorrir. Quero um cachorro bem simples, um bom vira-lata de classe. Um cachorro que levarei anos para te convencer a aceitar, e que a princípio você irá odiar e então vai amar por que todos os dias ele te dará um beijo, te enchendo de carinho, alegria e um pouquinho de baba, te fazendo dizer “Eu não aguento mais esse cachorro”, e então sorrir por que sabe que aguenta e este cachorro é parte de nós. Quero amigos bem simples, sim. Que venham nos visitar sem avisar, já que passaram por nossa rua e sentiram vontade de nos ver e conversar, e então conversaremos na nossa cozinha, tomando um café enquanto nosso cachorro pede comida. Assim conversaremos nos despediremos e pensaremos “Que bons amigos nós temos.” Quero uma família bem simples, sim. Que nos encontremos não só nos feriados e funerais, mas nas terças durante a tarde, para sua mãe dizer que vai fazer um bolo fresquinho e seu pai dizer que meu carro precisa de uma pintura, pois é um carro bem simples. E minha mãe te dirá que eu sou um malcriado que não liga para ela, mesmo eu ligando todos os dias. E você irá concordar, “Ele é um malcriado mesmo” — sorrindo. Ah, o que eu quero! Eu quero uma vidinha bem simples. Que nela nos falte água e luz de vez em quando, que nos falte sono e nos falte tempo, que nos falte dinheiro no fim do mês, que nos falte paciência (mas só uma vez). E que quando tudo estiver em falta, nessa vidinha bem simples, nós não demos falta de nada. Pois a nós, nunca faltará amor.”
As minhas histórias se fundavam em uma simplicidade fabricada e em um desejo pelo amor que eu criava na minha própria e limitada imginação, assim:
“Há de chegar. O dia em que todas as vozes se erguerão, cada uma com seu canto, cada canto com seu verso, e nenhum verso deixará de ser ouvido, há de chegar. O dia em que a arma deitar-se-á ao chão, para deixar de ser arma e se tornar amar ao lado dos namorados que no chão se amam, há de chegar. O dia em que Deus e Alá apertarão as mãos e, na beira da praia em Copacabana, tomarão um porre de paz, há de chegar. O dia em que todo roubo será de corações e de beijos, e os culpados serão aqueles que este crime não cometerem, há de chegar. O dia em que as algemas jamais prenderão dois pulsos de um mesmo ser e sim um pulso de cada apaixonado, e que suas correntes serão de paixão — não de aço, há de chegar. O dia em que a peça de roupa mais valiosa será o sorriso e, sendo tão valiosa, nada custará, há de chegar. O dia em que todas as leis se tornarão uma só, que por decreto dirá que a felicidade será obrigatória, e as celas serão abertas pois a única prisioneira será a tristeza, há de chegar. O dia em que todo choro será de alegria e as chuvas das enchentes serão essas torrenciais lágrimas, em que todos se afogarão, há de chegar. O dia em que as fronteiras não precisarão ser guardadas, pois os que invadirem, invadirão os espaços do abraço, há de chegar.
E, enquanto não chegar, quando os de corações mesquinhos apontarem-me o dedo e dizerem: Sonhador!, direi, pois, que sou. Que sou e que sonho acordado. E que estamos ambos, eles e eu, errados. Pois o dia que há de chegar, chegou. “O dia que há de chegar chegou com você.”
Lendo-as hoje, essas palavras de dois mil e quatorze são evidentes emulações do estado espírito do eu-lírico que desejava escrever a história mais engraçada do mundo na crônica de Rubem Braga. Eu não as escreveria hoje. São, porém, a superfície do mais fundo oceano da minha necessidade de expressão e por elas naveguei com alegria.
Venho descobrindo a minha própria voz e o tom dos meus textos é absolutamente diferente do que se lê acima. Primeiro, eu não tenho uma boa imaginação, sou incapaz de criar bons enredos e dar bons nomes aos personagens e fazer tramas que vão de lá para cá e daqui para lá. Segundo, eu não tenho a intenção de entreter. Não que eu rejeite o entretenimento, mas eu aprendi a aceitar que eu não sei entreter, e há muita gente capaz de fazê-lo, por isso eu me retirei desse ringue. A minha luta é outra.
A minha luta é por escrever cada vez mais como eu respiro. É assim: sorver tudo o que eu vivo e, como em uma infinita crônica, pôr na definitividade o que pertence ao reino do efêmero; fazer, através do rítmo acelerado, que esse mundo exponha suas entranhas e que possa finalmente ser compreendido e explorado na sua totalidade; contar histórias que me soam urgentes nas tripas e precisam ser ditas mesmo que não haja ninguém para ouvir; tornar o intolerável em palavras e frases e parágrafos em sua própria configuração, para decifrá-lo e encará-lo nos olhos e ser capaz de dizer Eu não te temo mais.
Às vezes eu sinto muito medo. Medo de que as palavras parem de vir até mim, medo de que elas parem de se revelar e que eu tenha que parar de escrever. Porque hoje elas seguem seu próprio caminho e eu as respeito e as admiro e as cuido e as acolho e as exponho sem censuras internas. Eu me calo e faço todo o resto calar e assim eu escrevo.
Se um dia eu não for mais capaz de fazer isso, o que eu farei? Se eu não encontrar mais a moça triste e doente no meu coração?
Essa ideia me causa terror. Mais terror que a ideia da morte. Mais terror que a ideia do fim. Mas eu lembro da simples frase:
Don’t try.
Eu me acalmo e busco o silêncio para ouvir melhor. As palavras continuam vindo. Lucky me, não?
Essas considerações surgiram quando li o conto do escritor português Valter Hugo Mãe, chamado Querido monstro. O narrador fala dos seus dois amigos imaginários, que vivem embaixo da sua cama e são muito tristes. Não parecem servir de nada, não ajudam em nada, só permanecem assim, tristes e calados. Depois que o narrador conhece o amor e os amigos imaginários se vão, finda assim o conto:
“Coloquei os barquinhos de papel numa estante bonita e prometi lutar para que nunca mais ninguém naufragasse nos meus braços. Apenas sorrisse. Eu disse: quero ver as pessoas todas do mundo a rir. Foi o que eu disse, ainda que estivesse sozinho no quarto”.
Na hora me lembrei de Rubem Braga. E da moça triste. E do seu ideal. E em mim.
No meu, que seria fazer amizade com um passarinho, e que feito o passarinho enjaulado eu não deixasse de dizer o que preciso dizer, ainda que esteja para sempre sozinho dentro de mim, pouco importando se o meu canto ecoa para o lado de fora e cria prazer no ouvido de alguém.