Escrever é perder, perder, perder — Eu posso estar errado — Edição Nº24

Gabriel Schincariol Cavalcante
7 min readFeb 14, 2022

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Escrever é sobre perder, perder e perder.

Publicado originalmente na newsletter Eu posso estar errado. Acompanha lá.

“Se nos descuidamos, a linguagem é uma das gaiolas mais terríveis que estão sempre nos esperando. Em alguma medida podemos ser prisioneiros de nossos pensamentos pelo fato de que esses pensamentos se expressam limitados e contidos sem nenhuma liberdade”

- Julio Cortázar, em Aulas de Literatura

Julio Cortázar

Todo mundo, ou quase todo mundo que escreve de maneira contínua e consistente, seja ou não um profissional, mas que tem na escrita uma espécie de dever pelo qual se possui enorme esmero, já se deparou com a sensação de que escrever é, em dado momento, um ato inútil e dispensável.

Todo mundo, ou quase todo mundo que sente que escrever é parte indispensável da sua própria composição humana, sem a qual não parece ser possível viver, mais ou menos nos termos que Rilke propõe ao jovem Franz Kappus (Cartas a um jovem poeta), já entrou em desespero existencial ao se ver frente a frente com a sensação de que aquilo que o faz humano, completo, é um ato inútil.

Alguns nunca mais escrevem, outros seguem em frente, superando ou não essa aparente antinomia entre a necessidade e a inutilidade da própria escrita.

Eu estou, até o momento, no segundo grupo. Sou a todo o tempo inundado pela sensação de que não deveria escrever nunca, jamais outra palavra, e também a todo o tempo me vejo preenchido por uma necessidade quase física de escrever outra vez. Essa necessidade fica desagradável quando se encontra com uma impossibilidade de escrever, um bloqueio, uma ausência de força propulsora.

Recentemente participei da live de lançamento da coletânea de contos Rolezinho, com a qual eu contribuí, e, em determinado momento, discutimos como parece que escrever fica mais difícil com o passar do tempo. Quando você começa a escrever, tudo é possível: você tem o mundo inteiro. Nenhum compromisso, nenhum estilo, nenhum passado. Pode copiar tudo, pode explorar, pode colocar uma palavra depois da outra sem nenhuma responsabilidade consigo mesmo, nem com os inexistentes leitores.

No entanto, com a passagem do tempo, e com o acúmulo de palavras escritas, você passa a construir uma espécie de autorrespeito, uma autoconsciência da sua própria escrita. Você encontra uma voz. Você encontra um estilo. Deveria, então, ser mais fácil escrever, mas é o contrário. Você agora conhece os caminhos, e de repente se vê assustado com as possibilidades que eles oferecem.

Você conhece talvez aquele que seja o problema fundamental da escrita: a barreira da linguagem. A linguagem escrita é o medium do escritor, por meio do qual ele expressa suas ideias, suas histórias, expressa a si próprio.

Expressa a si próprio, mas nunca tal como se é.

A barreira da linguagem reside justamente nisso: que ela permite a expressão, mas ela também a limita.

Um amigo me encaminhou uns trechos do livro Aulas de Literatura, do Cortázar, que ele encontrou no sebo por um valor pornograficamente barato. O Cortázar diz o seguinte:

“Se nos descuidamos, a linguagem é uma das gaiolas mais terríveis que estão sempre nos esperando. Em alguma medida podemos ser prisioneiros de nossos pensamentos pelo fato de que esses pensamentos se expressam limitados e contidos sem nenhuma liberdade, porque há uma sintaxe que os obriga a se darem dessa forma e de alguma maneira estamos herdando as mesmas maneiras de dizê-lo, ainda que depois mudemos as fórmulas”.

A isso, eu respondi que escrever é um jogo de perder, perder e perder, três vezes.

A linguagem agridoce

O que eu quero dizer com isso exige mais algumas informações.

Mikhail Bakhtin, filósofo da linguagem soviético, defendeu ao longo dos seus (fragmentados) trabalhos que a linguagem tem, em sua essência, uma natureza dialógica. Apesar de dialógico se comunicar com a ideia de diálogo, dialogia, para o Bakhtin, é uma categoria própria e mais profunda.

A dialogia bakhtiniana é uma forma de constituição do indivíduo, que só ocorre na relação com o outro, por meio de discursos históricos instaurados pelo sujeito, que, ao mesmo tempo, instaura-se por esse discurso. Para Bakhtin, o eu se realiza no nós.

E o que isso tem a ver com todo o resto?

Se a constituição do indivíduo ocorre por meio da instauração dos discursos, todo o mundo interior desse indivíduo é, ele próprio, construído pela heterogeneidade dialógica das vozes sociais. Nossa consciência individual se revela, na verdade, como um agregado da consciência social, da qual nós nos alimentamos e, ao mesmo tempo, com a qual nós contribuímos. Daí a relação dialógica.

É possível observar nessa construção a semelhança com o trecho de Cortázar (que eu não faço a menor ideia se leu ou não leu Bakhtin, mas isso não importa tanto), no sentido de que nossa consciência se expressa a partir da linguagem que herdamos, e, no descuido, pode revelar uma verdadeira prisão. Eis a primeira vez que perdemos.

Além disso, Bakhtin propõe que o nosso ato de enunciar, de dizer (com a voz, com a escrita) está sempre orientado pelo outro. O que acontece é que nós temos nossa consciência individual, na qual realizamos conexões e ideias, e precisamos da linguagem do discurso para materializar as ideias dessa consciência. Como a linguagem é limitada, com sua sintaxe que nos obriga a uma forma, a reprodução de uma ideia nunca é a ideia em si, mas a sua representação.

Isto não é um cachimbo.

Esta é a segunda derrota.

Isto não é um cachimbo

Existe a famosa frase do Barthes, que diz “a língua é fascista”, porque nos obriga a dizer. Estamos dentro de um sistema normativo, em que ambas as partes (a linguagem se realiza no diálogo) precisam ter o mínimo de conhecimento mútuo do medium utilizado para haver compreensão.

A língua permite expressar, mas a língua limita a expressão.

Daí a o momento em que perdemos pela terceira vez.

É o interlocutor (quem nos ouve, quem nos lê) que completa, dialogicamente, o sentido do que enunciamos. É mera bobagem dizer que se é responsável pelo que se diz, não pelo que é entendido, porque o que se diz só existe na compreensão do outro. Claro, existem compreensões muito distantes da intenção original por algum tipo de ruído na comunicação (seja a disparidade de informações de cada um dos envolvidos, seja uma má-intenção do ouvinte, seja uma intenção capciosa por parte do enunciador), mas sem o processo de compreensão e significação do ouvinte/leitor, o texto sequer existe.

É o leitor quem contribui ativamente para a realização do texto. Não é um processo passivo, de mera recepção estéril. O texto se completa nessa relação dialógica, em que o leitor é instaurado pelo significado proposto e instaura um significado apreendido.

Se perdemos pela terceira vez, porque nossa ideia original agora está cada vez mais distante do que foi materializado na escrita, não deixamos de ganhar algo novo, único, que supera a prisão da linguagem, formado na comunhão do escritor e do leitor.

Não surpreende, portanto, que seja tão difícil dizer o que se pensa. Que uma ideia latente na nossa cabeça não se revele frutífera no papel.

Quantas vezes alguém não se enganou dizendo o texto está pronto na minha cabeça, só falta escrever?

O texto pronto na cabeça não existe.

O texto pronto na cabeça é um não-texto, um fragmento, uma fagulha, no máximo.

O texto pronto na cabeça é um fiapo de consciência, navegando em um mundo de ideias e possibilidades, as quais muitas jamais verão a luz do dia.

O texto pronto é o texto escrito e lido. Aí ele se realiza na sua plenitude.

A habilidade do escritor reside, em parte, na capacidade de explicar ideias por meio da linguagem da maneira mais clara possível. Muitas vezes somos surpreendidos por um texto que diz exatamente o que nós pensamos, mas nunca fomos capazes de exprimir.

É a propriedade mágica da escrita. Instaurar e ser instaurada. Dar o nome.

Por isso a forma como dizemos importa tanto quanto o conteúdo do que queremos dizer. A forma dita a compreensão. Em Bakhtin surge a figura do gênero do discurso, que ele usa para definir como o conjunto de técnicas e vozes próprias de um certo campo da comunicação.

Para Bakhtin, nós sempre estamos escolhendo entre diversos gêneros do discurso para enunciarmos nossas ideias, de maneira mais ou menos consciente. Ao escrevermos uma mensagem profissional, adotamos um gênero do discurso próprio para aquela ocasião. Ao escrevermos uma história de suspense, é o gênero do discurso adequado que conduzirá a construção da narrativa e a sua recepção pelo leitor.

Não é raro ver alguém ser muito habilidoso com, por exemplo, a redação de petições jurídicas, mas terrível para conversas triviais.

O domínio dos gêneros do discurso é um traço característico de escritores competentes. Saber navegar entre as diversas vozes disponíveis é fundamental para diminuir, ainda que minimamente, a quantidade de perdas que ocorrem desde o momento em que idealizamos alguma coisa e o momento em que materializamos essa mesma coisa na escrita.

Escrever é, realmente, perder, perder e perder.

Mesmo assim, nós continuamos escrevendo. Somos excelentes perdedores. Bom, alguns de nós são.

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