Diga o nome da Morte em voz alta

Tirando da morte o seu poder sobre a vida, ou: aprendendo a viver em face da morte

Gabriel Schincariol Cavalcante
7 min readNov 6, 2024

Publicado originalmente em Eu posso estar errado

Antonio Cicero

Não sei quando foi que pensei na morte pela primeira vez — talvez tenha sido quando percebi, pela primeira vez, que era humano, cuja condição primeira é saber-se mortal e, a partir de então, orientar todas as suas ações em face da mortalidade. Mas eu me recordo da primeira vez em que a morte me assombrou: eu era menino, uns sete, oito anos, e um primo me disse que os adultos podem morrer se a língua enrolar, “acontece muito”, tapando a garganta. Incrédulo, perguntei como evitar, e ele disse que não tinha como, mas caso acontecesse, era preciso enfiar a mão dentro da boca do adulto para desenrolar a língua.

Permaneci incrédulo, porque tinha medo de acreditar, mas a partir de então passei a observar a respiração da minha mãe e do meu pai, inclusive enquanto eles dormiam, para ter certeza de que suas línguas não estavam enroladas. É a lembrança mais antigo que tenho da morte exercendo sobre mim o seu poder aterrorizante.

No dia 23 de outubro deste ano, o poeta e imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Cicero morreu em Zurique, na Suíça, aos 79 anos. Sua morte comoveu, da forma como toda morte de alguém que admiramos comove, porque sentimos que estamos perdendo algo de nós que essa pessoa carregava consigo. Mas sua morte fez mais: chamou atenção para o direito de morrer. Antonio Cicero morreu naquele momento por escolha própria, após ser submetido a eutanásia, quando sua vida, para ele, havia se tornado insuportável. Antonio Cicero sofria de Alzheimer e já não mais se lembrava de quem amava, já não mais escrevia bons poemas ou ensaios, já não mais podia fazer o que mais gostava, que era ler. Antonio Cicero rejeitou a indignidade para morrer como viveu — quem está dizendo não sou eu, mais ele, em carta de despedida:

[T]enho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.

Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.

Eu não sei quando pensei na morte pela primeira vez, mas há muito tempo tenho nela pensado e as palavras de Antonio Cicero soaram aos meus ouvidos como se fossem minhas.

Conforme fui crescendo, parei de verificar a respiração dos meus pais durante a noite. Eu sabia que um dia eles morreriam e eu sabia que sentiria dor e eu sabia que sentiria tristeza. Parei de verificar a respiração, mas não deixei de pensar nisso. Não me furtei, nem me neguei a imaginar um futuro sem meus pais. Ainda como criança, tentava modular meu pensamento: vai levar muito tempo até eles morrerem, mas será dolorido.

A verdade, como sempre, não se moldou pelo meu pensamento. Não foi muito tempo até eles morrerem e, como esperado, doeu. E eu me entristeci. E eu chorei. Mas, de alguma forma, eu não experienciei, em momento algum, a sensação de que a minha vida havia acabado. De que não havia como continuar vivendo. De que tudo havia se perdido.

Sim, eu experienciei a sensação de que a vida como era havia acabado e de que seria difícil viver sem eles. Seria difícil seguir meus dias sem trocar figurinhas com a minha mãe. Seria difícil não poder contar à ela como as coisas estavam indo. Mas eu sabia que a vida seguiria. Assim como eu sabia que um dia eles morreriam. Eu nunca neguei a possibilidade da morte: não dei a ela o direito de controlar a minha vida.

Naquele que talvez seja o seu mais belo ensaio, De como filosofar é aprender a morrer, Montaigne escreve saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento. Saber morrer é, enfim, viver:

Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento.

Quando li a carta de despedida de Antonio Cicero, lembrei imediatamente deste ensaio. Desconfio que Antonio Cicero também leu, em algum momento, Montaigne. Sua decisão é a decisão de quem nunca se furtou a dizer o nome da Morte em voz alta, retirando-lhe o poder místico da não-nomeação.

Desde o momento em que somos imbuídos de linguagem, em que aprendemos a dizer o nosso nome, a chamar nossas mães, a pedir pelos nossos pais, a nomear o que sentimos, sabemos que somos finitos. É o que nos distingue de todas as demais espécies: o inevitável instante em que reconhecemos que somos mortais. Saber da nossa finitude molda todas as nossas ações; a existência da memória é pressuposta pela mortalidade — ninguém precisaria lembrar se a vida não acabasse. Nós nos lembramos, porque passamos, e queremos permanecer — queremos permanecer como memória, queremos permanecer pelos outros, queremos transmitir quem fomos. Construímos monumentos, porque morremos. Porque a vida passa. Registramos, porque morremos. Escrevemos, porque morremos. Cantamos, porque morremos. Tudo é vestígio da nossa existência transitória. O que nos faz humanos, os atos de amor, de carinho, de criação são atos oriundos da nossa natureza mortal. Dizer Eu me lembro é dizer Eu sei que não durarei, mas esta lembrança permanecerá. Dizer Eu me lembro é desafiar a morte, não negando a sua ocorrência, inevitável, mas negando a ela o efeito devastador de acabar com tudo antes da hora. Eu me lembro de você. Eu leio suas palavras. Eu ouço sua canção. Eu vejo o seu rosto na minha memória. Eu me deleito em seus versos.

Eu guardo em mim tudo o que vivi, tudo o que você viveu, e compartilho o que guardei com os outros, para que eu continue vivendo, para que você continue vivendo. Guardar é ser ou estar pela coisa guardada, como nos versos de Antonio Cicero, que guardamos em nossos peitos, esteja ele aqui, não esteja mais:

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Se morrer é o pressuposto de todo nascimento, morrer é, diz Montaigne, parte integrante de vós mesmo. E por que negamos a morte? Por que, nessa negação, concedemos à morte um poder maior do que ela deve ter — o poder de ser uma caraterística da vida?

Escondemos a morte, rejeitamos seu nome, transformamos a morte em um fantasma, um monstro sob a cama. Mas os monstros que ficam sob a cama tem todos a mesma característica: eles desaparecem quando acendemos a luz e botamos os olhos no que antes era escuro. O poder do monstro sob a cama reside justamente em não olhar, em não verificar — reside no seu anonimato, no obscurecido.

Negamos à morte o seu espaço na vida cotidiana. Se hoje alguém morre, escreve Ariès em História da Morte no Ocidente, a vida segue como se nada tivesse acontecido, o carro da funerária é como outro carro qualquer, a rotina da sociedade segue imperturbável, a coletividade recusa a morte como um evento individual, e resta ao enlutado experienciar o seu luto sozinho, fora dos holofotes, para não constranger os demais.

Mas a morte é um evento social. A morte é um evento coletivo. A morte é um evento humano.

Ao transformamos a morte em pornografia, que está confinada ao ambiente privado, revestida de tabu, concedemos à morte um assustador poder sobre a vida, uma sombra que nos aterroriza em silêncio. É o que nos diz Geoffrey Gorer, em The Pornography of Death: quanto mais inmencionável é a morte, maior o seu terror.

É preciso que digamos Morte em voz alta. É preciso que admitamos a possibilidade de sofrer, é preciso que admitamos, em público, a possibilidade de morrer. É preciso que rejeitemos a morte como mera indignidade. A morte não nos tira a vida: a morte orienta a vida, em sua natureza temporalmente limitada. É neste intervalo que toda vida é completa em si, seja mais curta, seja mais longa. É neste intervalo que toda vida é celebrada e que tudo o que conhecemos é formado, criado, reinventado. A vida não se encerra na morte. A morte não conclui a vida. A vida conclui a si própria, em comunhão com todas as outras vidas, que se entrelaçam, que se comunicam, que se enriquecem.

Diga o nome da Morte em voz alta.

Não há prazer conhecido cuja procura em si já não constitua uma satisfação. Ela liga-se ao objetivo visado e contribui muito para o resultado de que participa essencialmente. A felicidade e a bem-aventurança da virtude enchem-lhe as dependências e os caminhos, desde o portão da entrada até os muros que lhe cercam os domínios

— Montaigne, De como filosofar é aprender a morrer. Capítulo XX, I. Ensaios.

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