Deus te abençoe — Eu posso estar errado — Edição Nº37

Quando a minha vó diz ao telefone: Deus te abençoe, eu sempre respondo, invariavelmente, com um honesto e sincero Amém.

Eu abandonei a catequese depois da primeira aula. Não foi um ato de rebeldia, mas um reconhecimento de uma certeza sem origem bem definida, que não veio desacompanhada do medo de punição divina.

Mas antes, preciso voltar um pouco.

Minha família por parte de mãe nunca foi de muita religiosidade. Acho que a maioria deles acredita em Deus, minha vó certamente acredita, manteve a vida toda uma imagem de Nossa Senhora no quarto e um menino Jesus num bercinho como adereço da sala. Minha mãe acreditava, sem praticar. Dizia sempre: igreja é onde você se encontra com Deus, em qualquer lugar. Não sei se dizia por acreditar, ou por não ter muita paciência para a igreja tradicional, católica. Deus estava lá e não se pensava muito nisso.

Com o meu pai era diferente. Meu pai acreditava em Deus com fervor. Por muito tempo foi católico (foi ele quem me levou na catequese por um só dia e foi ele quem ficou chateado quando eu disse que não, não voltaria para a segunda aula) e no fim da vida costumava ir na igreja evangélica. Hoje vejo que meu pai era muito suscetível a promessas grandiosas: não pela sua fé, mas pela sua natureza. Toda oferta de redenção por meio de contribuição monetária era imediatamente aceita pelo meu pai, muito obrigado. Se havia nele uma linguagem do amor bem definida, era a linguagem do dinheiro: quando tínhamos uma condição financeira elevada (durou pouco), ele esbanjava, presenteava, distribuía; quando as coisas degringolaram, ele estava sempre buscando um jeito de ascender novamente para agraciar os filhos, os amigos — e, na verdade, agraciar a si mesmo como alguém generoso.

De todo jeito, eu cresci entre a pouca religião da minha família materna e a religião sui generis do meu pai.

Quando ia na casa de amigos e eles diziam Bença ao encontrar suas avós ou avôs, e as avós e os avôs respondiam com Deus abençoe, meu filho, eu sentia alguma coisa.

Talvez inveja?

Ciúmes?

Não que eu quisesse dizer Bença, mas queria essa dinâmica para mim, esse jogo familiar bem definido, papéis claros e distribuídos. É uma tradição de pertencimento, e como alguém que cresceu em busca de um lugar para chamar de seu — não fisicamente, apenas -, eu ansiava por me ver inserido dentro daquela dança.

Bença, para mim, sempre foi uma expressão de um mundo exterior inacessível.

Isso para dizer que a minha relação com Deus, era, bem, não era. Eu acreditava em Deus, pela força dos costumes, e tinha um pouco de medo de Deus, também pela força dos costumes, e eu achava a igreja da matriz de Boituva bonita, e ficava prestando atenção nos detalhes da parte interna da igreja quando, raramente, eu ia na missa por algum motivo específico. As palavras ditas, por outro lado, nunca fizeram grande sentido para mim.

Vez ou outra eu rezava antes de dormir. Sempre que eu rezava eu parecia ter pesadelos, e passei associar as rezas aos maus sonhos. Parei de rezar antes de dormir.

Vez ou outra eu parava na capela ao lado da igreja da Matriz, sentava em um dos bancos e ficava de olhos fechados, pensando em alguma coisa. Tentando algum contato com Deus. Fazendo um pedido. Passando o tempo. Depois eu molhava o dedo na água benta que ficava perto da porta, fazia o sinal da cruz e ia embora.

Não pensava muito no que era Deus: sempre esteve lá, havia o mundo e havia Deus, e como havia Deus, havia o mundo.

Mas fui crescendo. Por muito tempo pensei na minha relação com Deus como uma relação negocial, nos termos de um jogo de videogame: se eu fizesse boas coisas, receberia alguns pontos; se eu tivesse más ações, perderia alguns pontos. O que importava era, no fim, ter pontos positivos e, assim, garantir meu lugar no céu.

Depois fui ficando confuso. Via meu pai assistir aos canais que passavam missa e não me sentia especialmente comovido. Íamos, vez ou outra, na igreja, e eu não me sentia especialmente comovido. Mas eu tinha medo, isso é certo. Havia Deus, havia o mundo, e negar um era negar tudo.

Muitos colegas meus da infância faziam catequese e era, como toda atividade infanto-juvenil, um momento de socialização. Eles tinham os amigos da catequese. Os amigos da igreja. Alguns eram coroinhas. Aquilo sim me comovia: essa possibilidade de interação, de aumento do círculo social, de integração.

Por outro lado, eu não queria perder meus sábados de manhã tendo aula, porque, no fim das contas, catequese era uma aula.

Pela minha mãe nunca houve nenhuma sugestão de que eu devesse me formar em Cristo. Meu pai, por sua vez, achou que era hora de eu enriquecer a minha alma com os ensinamentos divinos. Ele me comprou um caderno azul de capa dura, aquele fininho, um par de canetas, um lápis, uma borracha e um estojo e, ao me presentear com esses itens, disse que no sábado seguinte eu começaria a catequese.

Concordei, por não achar que havia outra opção.

Há Deus, e há o mundo.

No sábado seguinte eu acordei cedo, peguei o caderno, as canetas, o lápis, tudo, e fui para a igreja da matriz, onde, numa sala anexa, as aulas ocorriam.

Não lembro muito bem do conteúdo. Rezamos. Eles rezaram, eu acompanhei em silêncio, porque eu não sabia rezar. Eu só sei o Pai nosso. Não era o Pai nosso que eles rezavam, então eu fiquei em silêncio. Senti a força do deslocamento. A professora percebeu. Falou comigo ao fim da aula, pediu para que eu copiasse a oração de Nossa Senhora Aparecida no caderno, três vezes.

Eu fiz que sim com a cabeça.

Ao sair pela porta, eu já estava decidido a não voltar mais.

Há Deus, há o mundo, e então havia eu.

Não falei para o meu pai de imediato e esperei o fim do domingo, quando voltei para a casa da minha mãe, para contar para ela que eu não ia continuar na catequese. Ela não se opôs, disse que a escolha era minha.

Respirei aliviado. Na semana seguinte, disse para o meu pai que eu não iria mais no sábado de manhã, antes da aula. Ele se opôs. Eu reafirmei: não vou mais. Ele cedeu. Magoado, aceitou a minha decisão.

Respirei aliviado, de imediato. Depois, tive medo.

Assim continuou minha relação com Deus: indefinida e temerosa. Eu não compreendia aquilo em que eu julgava acreditar. Para superar meu medo, criei um Deus próprio na minha cabeça: um Deus que não me puniria por desistir da catequese e que, no fim, era feito apenas de bondade.

Aquele era um bom Deus. Um Deus em que os pontos no final do jogo não te mandam para o inferno.

Respirei aliviado, outra vez. Depois, tive dúvidas.

Por que eu precisava criar um Deus? De onde vinha essa necessidade de moldar a figura divina às minhas próprias convicções?

Do mesmo lugar que vinha minha atração pelo significado do Bença, vó, que meus amigos diziam; do mesmo lugar que vinha minha atração pela catequese, quando ouvia meus colegas falarem sobre as aulas. Há Deus, então há o mundo, e para que eu faça parte desse mundo eu preciso de Deus.

Mas eu cedi. Era uma crença fragilizada e utilitária. Eu só não queria me sentir sozinho. Eu, no fim das contas, não acreditava em Deus, e a cada vez que eu me punha em confronto com a minha própria crença, diante das outras convicções, eu percebia que não havia crença alguma, mas só o mesmo desejo de fazer parte de algo maior.

E a minha despedida de Deus não afastou essa vontade de pertencer: no lugar da crença, eu coloquei uma não-crença praticante. Passei a consumir conteúdo de canais ateístas do youtube, em especial um em que os apresentadores, especialistas em religião, rebatiam telespectadores cristãos que, via de regra, mandavam os apresentadores pro inferno.

Eu me deliciava. Se os cristãos me queriam pegando fogo, então eu daria motivo para que eles me odiassem. Passei a compartilhar conteúdo anti-religioso nas redes sociais, a curtir todo post tosco da ATEA no Facebook. Não me basta não crer, eu queria mais: eu queria que ninguém mais acreditasse. Porque, afinal, eu ainda queria fazer parte de algo maior. Há o mundo, e não há Deus, e vocês vão concordar comigo por bem ou por mal.

Respirei aliviado, uma terceira vez. Depois, tive vergonha.

Onde eu queria chegar?

No que eu me diferenciava das pessoas raivosas que ligavam para um programa de rádio para amaldiçoar os apresentadores só por que eles não acreditavam no Deus delas?

Eu não tinha mais dúvidas sobre o fato de que eu não acreditava em Deus, como continuo não acreditando. No meu conjunto de convicções, a presença de Deus não se insere.

Só que, mais tarde eu percebi, não era necessário, para a manutenção de quem eu sou, das minhas convicções, que aqueles que me cercam compartilhem da mesma opinião.

Só mais tarde eu percebi que, para muita gente querida para mim, a religião não era apenas um sistema de crenças, mas também um seio social — o mesmo seio social que eu tanto quis frequentar, mas que não me comportava, não por culpa deles, não por culpa minha, mas por eu ser como eu sou e por eles serem como eles são — em que eles expressam suas próprias subjetividades. Só mais tarde eu percebi que a religiosidade, para muita gente, não é apenas uma parte da vida, mas uma parte constitutiva e indispensável da própria vida, o que faz a vida, para essas pessoas, ser o que ela é.

Eu compreendi, por exemplo, que para os judeus, os muçulmanos, os cristãos a religião precede o próprio indivíduo, e que eles, enquanto pessoas que creem, vem depois da religião, pela religião.

E eu compreendi, também, que eu nunca vou pertencer a este grupo, e que eu nunca vou experimentar essa sensação de integração divina entre corpo e espírito, e que eu posso viver sem isso.

Mas muita gente não pode.

Foi um longo processo de reflexão e readequação da minha conduta, até eu concluir que, enquanto Deus, para mim, não representa uma presença real, a fé alheia se pauta em laços tão reais quanto a vida em si mesma.

No fim, Deus, para mim, continua não havendo nenhum.

Estou confortável com isso. E confortável também com o que os demais chamam ou não de Deus: buscamos refúgios, afastamos a solidão, somos todos apenas gente.

E quando a minha vó diz ao telefone: Deus te abençoe, eu sempre respondo, invariavelmente, com um honesto e sincero Amém, ainda que eu não peça Bença.

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gabrielschincariol@gmail.com / www.gschincariol.com

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