COMETA
Anotações itinerantes
Estou sentado na poltrona 24 de um ônibus da Viação Cometa, que está parado na rodoviária esperando o embarque dos demais passageiros. Espero que o motor seja ligado pelo motorista para que o ar-condicionado comece a funcionar enquanto o suor escorre pela minha testa, pois apesar de ser dez horas da noite ainda faz muito calor. Essa não é uma situação incomum. É, para mim, a mais comum das situações, a constante de uma vida em movimento. Desde que saí da casa da minha mãe em fevereiro de 2012 e fui para Barbacena, eu nunca mais tive uma casa só. Em Barbacena eu pensava em voltar para casa, mas eu voltava, na verdade, para perto da minha família: a cada feriado eu encarava oito horas de estrada, uma para no Graal de Lavras, mais uma hora e meia até Boituva para ficar três ou quatro dias visitando a minha mãe, minha irmã, minha avó, alguns poucos amigos do passado. E depois era tempo de voltar. E voltando eu torcia para demorar a chegar na EPCAR, para que a viagem se estendesse, e essa torcida era sempre frustrada. Mais tarde, em Ribeirão, ainda que eu estivesse confortável entre amigos, sempre havia um lugar para ir. Sempre havia um ônibus para se pegar na rodoviária. Já não usava mais o verbo voltar: usava o verbo ir. Estou sempre partindo. Estou num processo constante de ida. Ir para a casa da minha mãe. Ir para Boituva. Ir para Campinas. Ir para Araras. Eu não volto. Quando a minha mãe morreu, fui para Boituva para o seu velório e dormi em sua casa e me senti um estranho sob aquele teto em que vivi tantos anos da minha infância. As paredes eram as mesmas, eu não. Então, parti outra vez, agora para São Paulo. E ocupei um apartamento vazio no centro de uma cidade lotada e a cada final de semana eu ia para alguma outra cidade, ficar perto das pessoas que eu amo, em busca de mim nesse amor. E sempre que eu chego nesses lugares, tenho que pensar na hora de ir embora, porque sou itinerante. Uma travessia constante pela estrada. Não pertenço a lugar nenhum.
Agora o ônibus está ligado e o ar-condicionado começa a refrescar o ambiente e o suor da minha testa aos poucos deixa de escorrer.
Não pertenço a lugar nenhum. Lembro da minha infância e da adolescência, quando eu não viajava a todo momento, quando eu estava em um só lugar. Mas estar em um só lugar não é estar parado. A natureza do movimento é outra: externo ou interno, ele está acontecendo repetidamente. Quando eu observava meus colegas da escola eu sentia que eles sabiam de algo que me escapava: eles pareciam confortáveis. Confortáveis na própria pele, na própria vida, e a mim parecia que a vida estava sempre atirando uma nova bala para eu desviar. Precisei envelhecer e amadurecer para entender meu delírio infantil: a eles eu talvez também parecesse confortável. Há montanhas atrás de montanhas, o faixa-preta me disse esses tempos atrás. Estávamos falando de Jiu-Jitsu, mas eu estou falando de outras coisas. Há montanhas atrás de montanhas, mesmo que nossos olhos não as alcancem. Meus colegas tinham suas próprias contradições para lidar, eu só conseguia perceber as minhas. Todos os passageiros desse ônibus têm suas contradições, não só o que ocupa a poltrona 24. Quando eu chegava em casa, a mesma casa para a qual eu fui quando a minha mãe morreu, eu me deitava na cama e fazia carinho na cabeça da cachorra e pensava em como seria o futuro, em como eu seria, em como seria a vida quando eu enfim entendesse como tudo funciona.
O ônibus já está em movimento pela via e a vibração faz a minha cabeça doer enquanto eu escrevo.
Mas continuo escrevendo. Como seria a vida quando eu enfim entendesse como tudo funciona. Entendi muita coisa, principalmente que não vou entender como tudo funciona, porque é assim que a vida acontece: só sabemos o fruto de nossas ações depois de agirmos e estamos sempre fazendo apostas e blefes. Eu estou sempre indo de um lado para o outro. Estou sempre embarcando no próximo ônibus. Estou sempre em busca do meu próximo destino. Tenho de ficar atento para não me perder de mim no caminho.
Meu desejo é que no futuro eu possa descansar um pouco mais, diminuir o ritmo do movimento. Deixar as raízes crescerem. Fazer das paredes mais que paredes.
Voltar a usar o verbo voltar.
Ter para onde voltar. Ansiar a volta.
Agora eu sigo pela estrada e vou fechar os olhos para tentar dormir, porque daqui uma hora e quarenta minutos eu chegarei no meu destino e, lá chegando, começarei planejar a próxima partida.