A MORTE QUE NÃO NOS VISITA

Gabriel Schincariol Cavalcante
3 min readJul 30, 2019

Números frios, notícias rápidas e uma rápida nota sobre a chacina no Pará

Os números, primeiro:

O Brasil tem a 3a maior população carcerária do mundo — mais de 700 mil presos.

O número de vagas, porém, é de 415 mil presos. 300 mil pessoas. Mais do que cabe.

Dos mais de 700 mil, 36% sequer foram julgados. São aproximadamente 250 mil pessoas encarceradas sem um julgamento, sem uma sentença condenatória. 25% dos presos estão lá por tráfico de drogas — condenados ou não. São aproximadamente 175 mil pessoas.

Uma notícia rápida:

Saiu ontem no G1 que um homem preso em 2014 no caso em que ficou conhecido como “maníaco da moto” deve ser inocentado em novo julgamento — o ministério público voltou atrás após analisar novamente o caso. Ele está preso há cinco anos por estupro e agora chegaram a conclusão de que não foi ele quem cometeu

Outra notícia rápida:

Não faz muito que um homem foi preso no rio de janeiro suspeito de roubo, só que ele estava trabalhando na hora do crime. Pouco importou. Ficou na cadeia por mais de um mês.

Uma terceira notícia rápida:

Um homem foi preso após ação de inteligência da polícia ao ser reconhecido como um notório traficante, a partir de uma foto. Porém, na foto o traficante não tem tatuagem na barriga, que aparece na imagem. O homem preso tem. Há anos. Muitos anos. A foto é de agora. Ele permaneceu preso por considerável período antes de reconhecerem o equívoco.

Quarta e última notícia rápida:

Uma mulher foi presa por um crime supostamente cometido por sua irmã. O nome no mandado estava errado, os policiais não se importaram e a prenderam mesmo assim. Demonstrado o erro, foi expedido alvará, novamente com nome errado. Nesse caso ela não foi solta, porque a administração penitenciária disse que não poderia cumprir alvará com erro de grafia. Ficou presa mais um pouco.

Retomando números e notícias rápidas:

O Brasil vive uma enorme crise penitenciária e humana. A violência é gigante e a reação média é pedir mais cadeia, apesar de a cadeia brasileira nada resolver ou ofertar. A cadeia, na verdade, está até as tampas de gente como se fossem bichos leprosos. Grande parte sem sentença. Grande parte injustamente. Grande parte por crime sem violência. Grande parte por vender o beck que a galera fuma no apartamento com os amigos.

Agora, no Pará, ocorreu a maior chacina desde o Carandiru. Tem mãe dizendo que viu a cabeça do filho dentro de saco plástico. Ninguém sabe quem tá vivo, quem tá morto. Desses tantos, considerados os números e as notícias, quantos:

Não fizeram nada e estavam lá por engano;

Não fizeram nada e não saíram por um engano;

Estavam aguardando um julgamento até hoje;

Cometeram crimes sem violência?

Eu não sei a resposta, mas sei que o Bolsonaro, ao ser perguntado sobre o caso, se limitou a mandar o repórter perguntar “pras vítimas deles”.

É melhor não pensar sobre os números e sobre as notícias. Dormir com esse barulho infernal de saber que tem gente sendo decapitada sem que ninguém se importe é desagradável. Nem fechando a janela resolve.

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