A linguagem que habitamos

Um ensaio sobre MC Fioti no Waze e a palavra como lugar de pertencimento

Gabriel Schincariol Cavalcante
7 min readMar 16, 2023

Publicado originalmente em Eu posso estar errado. Inscreva-se!

Quando o Uber chegou, eu confirmei, como ditam as boas-práticas, se ele era a mesma pessoa que aparecia no aplicativo. Abri a porta traseira do lado do passageiro, como ditam as boas-práticas, disse boa tarde, ele respondeu boa tarde, pedi licença, entrei no carro, pus o cinto de segurança. O motorista confirmou o endereço e iniciou a viagem.

Era um homem nos seus 30 anos, camiseta, bermuda, talvez tênis, estou supondo o que eu não pude ver, e boné. Nós permaneceríamos juntos, no mesmo espaço, por um mero intervalo de 15 minutos. Depois, nunca mais nos veríamos — essa é a tendência da maior parte dos encontros, que eles se deem uma única vez. Não há nada de extraordinário nisso.

Então, quando a viagem foi iniciada, o Waze abriu automaticamente, com o meu destino configurado. Apareceu o tempo da viagem, a distância, o caminho.

Depois, surgiu uma voz que reconheci de algum lugar, sem saber de onde, mas muito mais do que a voz, eu reconheci os trejeitos da fala:

Em quatrocentos metro, vira à esquerda, certo?

MC Fioti

Não sabia na hora, mas era a voz do MC Fioti, famoso no funk paulista. O que eu sabia, mesmo sem saber como, era de onde aquele sotaque vinha: o sotaque da quebrada de São Paulo.

É nóis, disse a voz em seguida.

A casa da qual nunca saímos

Tente se lembrar dos primeiros dias da sua vida. Tente se lembrar dos primeiros meses. Tente se lembrar dos primeiros passos. Tente se lembrar das primeiras noites, da primeira casa, do primeiro quarto, da primeira dor, do primeiro medo.

Você pode tentar, mas você não vai se lembrar. Você pode saber por terceiros como foram esses dias, esses meses, esses passos, essas noites, essa casa, esse quarto. Você pode ser informado sobre esse tempo, mas você não será capaz de lembrar, por si só, o que você viveu.

E como você se lembraria?

Não havia à sua disposição material capaz de fixar essas lembranças. Tudo era feito de instinto: a fome chamava o choro, que era confortado pelo toque quente da mãe. A dor chamava o choro, que era aplacada pelos braços do pai. A vida não tinha nome; não se diferenciava de um cãozinho buscando abrigo ou alimento, um pássaro saltando do ninho pela primeira vez. Bastava sobreviver.

Só mais tarde, uns bons meses mais tarde, e enfim uns bons anos mais tarde, você foi introduzido e integrado na linguagem. Você foi introduzido na linguagem e passou a dar nome às coisas — a dor tinha nome, a fome tinha nome. O seu ursinho favorito tinha nome. Não bastava apontar com o dedinho: agora, você passou a dizer.

Com a linguagem, você deixou o instinto em prol da sua subjetividade. Enfim, havia um Eu. E este Eu pode lembrar.

Com a linguagem, você passou a dispôr da magia, que cria enquanto enuncia:

Toda denominación es un acto de magia.
Los seres humanos son magos que no se conocen a sí mismos — HUSTON,
La especie fabuladora.

Dotado de magia, você está apto a criar o sentido da sua própria vida, uma faceta própria da humanidade, que nos comove e nos desespera — não é só sobreviver, agora é viver, ciente, necessariamente, de que esta vida é finita. O que isso significa?

Não é mais como um cãozinho ou um pássaro, que seguem dia após dia apartados da noção de tempo. Você, introduzido na linguagem, também foi introduzido no tempo, e a linguagem é a sua magia para ordenar esse tempo.

Afinal, o que é a linguagem senão uma orientação linear da passagem do tempo? Uma palavra depois da outra, configurando passado e futuro num presente sempre precário. O que é contar uma história, senão manusear o tempo?

Ou, nas palavras de Todorov: narrar é projetar sobre uma linha reta a figura complexa do tempo.

Inserido no tempo, você dispõe da linguagem para compreendê-lo, ainda que não para controlá-lo, apesar do quase inevitável impulso que nos faz buscar o ilusório controle. A busca do controle é sempre infrutífera e frustrante.

Agora você tem um nome, que primeiro te deram, e depois você tomou para si, a força, agora as coisas têm nomes, agora você pode se lembrar, e você pode construir novas lembranças.

Agora, inserido na linguagem, você faz a linguagem a todo tempo.

Um outro exercício: tente se lembrar de como você aprendeu suas primeiras palavras. Não de como você aprendeu na escola a escrever seu nome (eu me lembro desse dia como se fosse ontem, o maior dia da minha vida); não de como você aprendeu tempos verbais, conjugação, o funcionamento das orações. Não da gramática: como você aprendeu suas primeiras palavras, aquelas que não são vazias, mas preenchidas de sentido.

Você não vai se lembrar.

Porque a nossa noção de lembrança é construída com a magia da linguagem, e a linha entre as duas parece impossível de ser traçada com precisão.

Você não vai se lembrar, porque não aprendemos a linguagem — palavras com significado — a partir da norma culta, a partir do banco escolar. A linguagem é anterior à norma, sempre, de rigor. Nós somos inundados pela linguagem, habitamos essa linguagem, e essa linguagem nos habita.

Esta é a nossa primeira e nossa última casa, da qual nunca saímos, apesar de ser uma casa em eterna mutação. É esta a casa em que o pertencimento nunca falha, porque não podemos não pertencer à linguagem que usamos sem que deixemos de pertencer a nós mesmos.

Não há separação, a não ser que nos separemos do que nos constitui.

A norma culta vem depois, para padronizar, facilitar a comunicação, possibilitar um consenso temporário. Na norma culta ninguém vive, ninguém habita: nós visitamos, vez ou outra, quando necessário. A linguagem acontece na vida real, a norma culta positiva o abstrato.

Aprendemos as primeiras palavras e enunciamos essas palavras, que nunca são as mesmas que aprendemos, mas outras, novas, que criamos a cada enunciação. Vamos adicionando novos enunciados na cadeia da comunicação discursiva, da qual somos todos parte.

É no enunciado — a palavra dita, escrita, a linguagem concretizada — que somos capazes de compreender o Outro, que quando nos escuta ou nos lê, permite que nós, enfim, existamos como Eu — assim parimos o Nós. É na relação intermediada pela linguagem que existimos num senso coletivo, e só por isso existimos no sentido do individual:

Na palavra, eu dou forma a mim mesmo do ponto de vista do outro e, por fim, da perspectiva da minha coletividade. A palavra é uma ponte que liga o eu ao outro. Ela apoia uma das extremidades em mim e a outra no interlocutor. A palavra é o território comum entre o falante e o interlocutor — VOLÓCHINOV e BAKHTIN, Marxismo e filosofia da linguagem.

Nesse eterno encontro vivemos as nossas vidas.

A forma como eu escrevo (ou falo) é quem eu sou

A frase The way I write is who I am, que é o título da minha pesquisa de mestrado, foi tirada do começo do livro O ano do pensamento mágico, de Joan Didion. Essa frase é escrita para, logo em seguida, Didion dizer que precisa de mais do que palavras — mais do que a forma como ela escreve — para entender o que ela está vivendo (o processo de luto que seguiu a morte repentina de seu marido).

Ela precisa de mais do que palavras, mas não tem. E são as palavras que vão possibilitar a organização do seu luto, das suas memórias, das suas emoções. É o caminho pelos palácios da linguagem que forma O ano do pensamento mágico, que desemboca não num momento de eureka!, mas na compreensão, que não é, necessariamente, redentora (quase nunca é).

Criamos significado para as vidas que desejamos viver.

E assim voltamos para o MC Fioti no Uber.

Não pensei nisso tudo enquanto fiz a viagem de 15 minutos, mas pensei em como nosso senso de pertencimento passa pela linguagem que habitamos. O que leva alguém a colocar a voz do MC Fioti no aplicativo do Waze?

Pode ser que a pessoa goste do MC Fioti. Pode ser que ela ache divertido. Pode ser que ela ache engraçado. Pode ser que ela se anime.

Pode ser tudo isso.

E pode ser que, ao mesmo tempo, ela se identifique. Que ela se identifique com os trejeitos próprios que eu percebi de cara: a forma de falar da quebrada, os enunciados próprios de uma classe social concentrada em lugares específicos da cidade/estado de São Paulo.

Todos carregamos essa identificação, em formas distintas. Eu reconheci a forma de falar da quebrada, apesar de não ser a forma como eu falo. Para o Uber, o sentido daquela fala é outro. Ele habita aquele dialeto, é a casa da qual ele faz parte. Cada um de nós carrega a identificação a partir de nossas experiências, e muitas vezes essa identificação se metamorfoseia num mesmo indivíduo, sem nunca se desfigurar: adotamos linguagens diferentes em situações diferentes, conforme as necessidades se impõe, e fazemos parte de cada uma delas a todo o tempo.

Para mim, ouvir o sotaque do interior de São Paulo, expressões como que tipo!, usadas por quase todo boituvense, é um convite às lembranças da infância e da adolescência. Quando um primo meu, de quem éramos distantes, foi para Boituva pela primeira vez, notei que ele usava a todo tempo a expressão tá ligado? ao terminar uma frase. Incorporei aquilo ao meu próprio dialeto, invejando a forma como ele falava, e assim ele passou, sem querer, a habitar a minha vida.

Depois em Barbacena, com as dezenas de sotaques de todo canto do Brasil. Depois em Ribeirão Preto. Depois em São Paulo. E em cada um desses lugares, nas suas subdivisões: a EPCAr, um ambiente militar; a faculdade; o trabalho; o bar; os treinos de basquete; na intimidade.

Em cada ambiente, as linguagens se misturam, formando novas variantes, e eu — e todos que lá estão — vou me transformando. A casa em que eu vivo se alarga, mas é a minha casa, e nela cabe a mim e o mundo todo. O meu mundo, pelo menos.

Quando terminamos a viagem, agradeci ao motorista. O MC Fioti encerrou:

Suavemente falando, chegamos. Logo mais, é nóis.

E é nóis. Como poderia não ser?

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