A ilusão do acesso
Minha melhor amiga Billie Eilish, e a promessa de presença e verdade como estética
Eu sei, estou atrasado. Todos nós sabemos que o estado atual da vida social, mediada pelo acesso quase integral a internet — em tempo e em espaço, com um caindo dentro do outro -, equilibra-se entre a superestimulação e a fadiga. Assim, muita coisa já aconteceu desde que a Billie Eilish publicou stories no close friends do seu Instagram que, Meu Deus!, incluía eu, você, todos os seguidores, billie’s besties, o que, é claro, era uma ação de marketing. A história é velha (de abril!), então ninguém mais fala sobre isso.
Só que eu vou falar, ainda que atrasado. Eu poderia dizer que é um ato de resistência ao imediatismo contemporâneo; que levei tanto tempo para escrever esse texto pela necessidade de meditar sobre o assunto, de formular adequadamente minhas hipóteses e opiniões; que eu me recuso a viver no tempo do esquizofrênico. Eu poderia, é claro, mas eu estaria errado (e mentindo) — e todos nós sabemos que nessa newsletter eu apenas posso estar errado, mas nunca estou. Assim que esse story foi publicado e o marketing por trás dele foi anunciado, eu abri o substack e escrevi em um rascunho: A ilusão do acesso. Salvei esse rascunho sob a autopromessa de escrever sobre o tema, que me é caro. Aí, eu não escrevi e um monte de coisa aconteceu e a data do depósito da minha dissertação foi chegando, chegando, chegando, até chegar (chegou, depositei, palmas para mim) e só agora, meses depois (uma vida inteira!) estou escrevendo esse texto.
Como é um texto que fala, também, sobre o tempo, essa delonga prefacial pareceu adequada. Ou é, de novo, a minha necessidade de dançar ao redor do tema antes de chegar ao ponto.
Enfim, anyway, anyhow. Vamos ao que me interessa.
Estava exercendo o hábito do doomscrolling quando, de repente, a bolinha com o rosto da Billie Eilish apareceu na barra de stories circundada pela linha verde: um story do close friends, o suprassumo do acesso digital, disponível para mim. No milissegundo entre a visão e a apreensão, eu me surpreendi: eu estou nos melhores amigos da Billie Eilish?! Se eu tivesse nascido ontem, eu teria ficado surpreso; eu não nasci, e ainda assim fiquei, e ainda assim fui tomado por uma súbita adrenalina. Apertei no story.
A primeira foto era uma mão submersa na água.
A segunda foto era uma parte da barriga tatuada e da perna da Billie Eilish, com um shorts curto. Sobre a foto, um emoji de uma carinha sorrindo de ponta cabeça. Uma foto própria de close friends, quando você não é muito dado a compartilhar seu imagens mais íntimas do seu corpo com estranhos na internet. Mas eu sou um estranho para a Billie Eilish.
Passada a surpresa inicial, era óbvio que eu não havia sido, pessoalmente, colocado no close friends de uma famosa cantora, com milhões de seguidores. Havia algo acontecendo. E para descobrir o que estava acontecendo, eu fui até a àgora contemporânea, o então-não-falecido Twitter, e digitei na barra de pesquisa: “billie eilish close friends”. Instantaneamente, milhares de resultados apareceram com pessoas relatando, em resumo, a mesma experiência que eu tive:
Meu Deus! A Billie Eilish me colocou no close friends!
Junto a esses tuites, vieram as teorias sobre o motivo. Alguns dias depois, um vídeo da cantora submersa na água, na mesma estética do primeiro story foi publicada em suas redes. Um mês depois, o álbum Hit Me Hard and Soft, o terceiro de Billie Eilish, foi lançado.
É evidente que a publicação no close friends, que lhe rendeu mais de 6 milhões de novos seguidores foi a preparação para o lançamento. Billie Eilish chamou a atenção de todo mundo em uma jogada de ilusão de acesso.
Mas por quê?
O que nos causa — o que me causou — tanta surpresa e excitação ao ver a bolinha do perfil da cantora com a borda verdinha?
Tenho — na esteira do que gente muito mais bem preparada do que eu, passando por Fredric Jameson, David Harvey, Leonor Arfuch, Beatriz Sarlo, Mark Fisher — concentrado boa parte do que escrevo no tema do tempo e do espaço na contemporaneidade. Em como nós nos relacionamos com esse tempo e com esse espaço.
A popularização da internet acelerou um processo que já era, por si só, acelerado, a partir das telecomunicações: os limites geográficos foram virtualmente apagados; o tempo e o espaço estão comprimidos — tudo é agora, tudo é aqui.
Ao mesmo tempo, em um apenas aparente paradoxo, a nossa experiência social parece ter cedido à compressão, ter se esgarçado — estamos totalmente conectados e, ainda assim, completamente desconectados uns dos outros. A superestimulação digital vem nos convencendo de que a experiência pode ser consumida enquanto imagem, e não representada: a imagem é a experiência. Quando tudo acontece ao mesmo tempo, nada parece acontecer, restando os fragmentos com os quais não somos mais capazes de simbolizar as nossas vidas.
O paradoxo é apenas aparente porque não resiste a uma análise mais aprofundada. Não é a internet, em si, culpada pelo tempo em que vivemos; o potencial de sociabilidade e integração dos primeiros fóruns, das primeiras comunidades digitais não sumiu, mas foi escanteado pela lógica da produção. Tudo virou adsense, tudo virou publicidade, tudo virou produto — tente baixar um único joguinho na PlayStore ou na Apple Store e jogue seu celular na parede com tanta propaganda; tente ler uma notícia na internet e se estresse com o paywall. A nossa conexão não é um com os outros; é mediada por esses produtos e por essas plataformas em que nós mesmos somos os produtos, que consumimos e em que somos consumidos. A autofagia digital, se você quiser um nome para chamar de seu. Todos habitantes desta nova configuração social, nunca nos sentimos mais alienados de quem somos, de quem queremos ser.
E quem somos?
Nós somos essa constituição pelo Outro, desde o princípio, desde o nome que nos dão — a primeira ação do Outro sobre nós, que guia toda as demais. Desde o nome que nos dão, desde a linguagem em que somos concebidos, desde as palavras que usamos — sempre habitadas pelos outros, pelas suas histórias, pelas suas interpretações. Somos essa insuportável soma daquilo que, a princípio, não éramos, desse aglomerado de faltas e vazios, que se encaminham para formar a ilusão de um ego unitário, só nosso, que nos identifica. Assim, quem somos, se recorrermos ao evento do luto em Lacan, está naquilo que perdemos com a morte do Outro, a queda do objeto a: aquilo que não é nosso, nem dele, mas aquilo que está em comum, em comunhão. Sem nós, sem o Outro, deixa de existir.
E se somos esse comum, essa coisa essencialmente compartilhada, quando nossos laços parecem cortados, fragilizados, deixamos de reconhecer a nós mesmos. Nosso anseio por pertencimento aumenta e, assim, buscamos na vida representada do Outro o suplemento daquele valor que nos falta, em busca da diferença que nos assemelha:
De fato, desde certo ponto de vista, poderia resultar paradoxal que em uma época tão desencantada como a nossa, onde as certezas se desvaneceram, onde o contato com a realidade — sempre questionada — parece haver-se transformado definitivamente em virtualidade, a autobiografia, um gênero ligado ao surgimento do mesmo sujeito moderno, ao desejo de identidade, veridição e posteridade, esteja hoje mais vivo do que nunca.
Também, invertendo a perspectiva, poderia pensar-se que talvez seja justamente por essa perda de certezas, pelo caráter inapreensível do acontecer, pela incredulidade e a suspeita que nos habitam como receptores, cidadãos, transeuntes globais — como alguns gostam de dizer — que a palavra autobiográfica, frente à crescente uniformidade dos discursos, investe-se de uma reconhecível diferença, de um suplemento de valor (Leonor Arfuch, O espaço biográfico na (re)configuração da subjetividade contemporânea, 2009, p. 113)
São nessas bases que entendo o desejo pelo acesso à privacidade: a privacidade nasce para ser violada, e é ela o espaço em que exercemos nossa intimidade, quem somos de verdade. O acesso ao privado é o acesso ao íntimo, ao erótico, ao que está fora dos olhos do público. Sentimos, nesse acesso, o privilégio de vermos a vida como ela é. A vida do ídolo. Do artista. Do escritor. O rush de adrenalina ao ver a cor verde ao redor da foto da Billie Eilish nasce na sensação de que estamos prestes a pisar num lugar que não é nosso, e que passará a ser. Que não nos pertence, e passará a pertencer.
Claro que a resposta a esse desejo vem embalado na estética, que reina, agora, sobre a ética: é uma resposta ilusória, comoditizada. O acesso não é dado, não é compartilhado em comunhão. O acesso é vendido, ainda que não seja de maneira imediata — mas, às vezes, é. Basta vermos o crescimento vertiginoso dos perfis em sites como OnlyFans, Privacy etc, com números milionários. A pornografia erótica não começou hoje, e nem é preciso gastar dinheiro para acessar o conteúdo mais fetichoso que você possa imaginar; o que esses sites vendem, no entanto, é o fetiche da nossa constituição, o fetiche do acesso, do exclusivo, do domínio. Como o fetiche do selinho azul do X, do Elon Musk. Do desejo do acesso para suplementar o que nos falta, partimos em direção ao desejo de controle e domínio, de ter algo que alguém não tem, de deter poder sobre a vida acessada.
Não se trata de nenhuma novidade pagarmos por conteúdo que consumimos — fazíamos isso comprando jornal físico, fazemos isso comprando livros, ingressos para o cinema, para um show de música etc. Entre nós e a pessoa que produz esse conteúdo, esta o medium artístico, profissional — a matéria jornalística, a obra de arte, literária, musical. O que é novidade é que entre nós e a pessoa que produz o conteúdo esteja, agora, um outro medium, que é a vida em si. A vida como ela é, a vida de verdade. Produtores e produtos, consumidores e consumidos, a distinção não é mais tão fácil de se estabelecer.
Quando um conhecido nos coloca, de repente, no close friends, somos surpreendidos por uma agradável emoção de proximidade. Nossos laços parecem ter se estreitado, um pacto foi formado, há algo em comum sendo estabelecido na nossa experiência coletiva.
Como toda emoção e experiência, alguém está pensando em um jeito de transformar isso em lucro. A equipe da Billie Eilish teve uma boa ideia.
(do álbum, eu já não lembro de música nenhuma; mas isso não importa, importa?)