A HISTÓRIA DOS HOMENS
Coletânea de seis contos premiada no Prêmio Nascente USP 2019
JOGO DE CENA
Estamos em um mundo de papéis pré-definidos, Senhora T., viemos a esta vida e nos deram um bloco, calhamaço enorme pesado intransportável, que é o nosso roteiro, as falas que nos são concedidas ter, os lugares, os cenários que nos são permitidos entrar, tudo o que nossa credencial pode ou não pode fazer, e te digo, Senhora T., adiantando-me ao vosso questionamento, de que material é feito essa credencial, é feito da soma de tudo o que somos antes mesmo de sermos, o que vem antes de nós, o que vem antes de nós e nos forma, pré-existente, nossos nomes, nossas cores, nossas vozes, nossos olhos, nossas localizações geográficas, latitude, longitude e cor da pele são os atributos de maior peso no complexo processo de designação do futuro de um homem, e aí vamos aprendendo nosso lugar, compreendendo o que nos cerca, dando nome aos bois, e entendendo finalmente o que essa voz sem som vem tentando nos dizer, ou melhor, o verbo não está correto, o que essa voz sem som vem a nos determinar: este é o seu caminho, olhe bem, e agora caminha.
A dança é essa que a música nos dá, não é um espetáculo muito requintado, Senhora T., reconheço, vosmicência que é apreciadora da elevada arte não deve se surpreender nem muito se animar com a falta de repertório desse script, mas a simplicidade é a alma do negócio, Senhora T., se me permite utilizar a expressão popular, o negócio é esse de fazer o mundo girar, que, ao contrário da crença popular, não se dá de maneira automática, é só fechar os olhos e dormir tranquilo que amanhã o sol vem outra vez, não é assim, Senhora T., funciona de maneira diversa, é preciso um conjunto enorme de forças atuando em convergência para que essa massa absurda mantenha seu giro e seu giro e seu giro dia após dia, essa força sem braços, essa força sem músculos, essa força oculta que se transporta através de cada um de nós e é preciso que tudo isso esteja bem ensaiado para que a terra gire e gire e gire, sem parar, imagine só, Senhora T., a senhora vir a acordar e de repente perceber que está, definitivamente, imóvel, nada se move, não há ar, não há vento, não há vida, parou-se e assim ficou?
Eu sei, Senhora T., soa absurdo. É mesmo absurdo. Mas fato é que o mundo gira, não gira? Sim, ele gira, Senhora T. É impressionante que em um teatro de tantos componentes as coisas deem mais ou menos certo na maior parte do tempo. A senhora tem razão, Senhora T., há nesse mundo uma enormidade de desgraças, mas pensando em escala, isso é, proporcionalmente, a enormidade de desgraças não parece pequena? Ao menos se pararmos para pensar em todas as desgraças que não vieram a acontecer e poderiam muito bem ter acontecido.
O meu papel, Senhora T., eu não sei dizer, eu arriscaria que é esse que executo, esse mesmo que vosmicência vê com seus olhos, que ouve com seus ouvidos, que toca com suas mãos, o meu papel é o que eu executo, e o que eu executo é o meu papel, mais do que isso eu não seria capaz de dizer, Senhora T., e não posso responder essa pergunta que me faz, Senhora T., sobre o papel que lhe cabe, a nós, intérpretes, é dado interpretar e não explicar, os desígnios de quem escreve essa tragédia não são conhecidos e o que se diz, correndo a boca miúda, é que aquele que ao desígnio conhecer terá o seu papel imediatamente finalizado com o ponto final dos autores, a morte morrida, que cumpre duas funções, a primeira de passar um recado aos demais: não queiram saber demais, a segunda é impedir que curioso abra o bico, pois não há quem não saiba que ao morto não é dado o dom da fala.
O que eu posso dizer, e isso apenas em virtude da parca experiência que adquiri nesses anos vividos, é que o desígnio universal pode ser, em medida segura, acessado de maneira parcial a partir do exame das próprias razões, isto é, meter-se de frente ao espelho e encarar bem, e depois partir o espelho e ainda assim encarar e compreender que a voz que determina Este é o seu caminho, olhe bem, agora caminha, não falava só dessa rua de terra batida ou desse asfalto quente, falava dos caminhos não vistos pelos olhos, dos caminhos das tripas coração, dos caminhos das entranhas, dos caminhos intocáveis e impercorríveis. Não sei precisar, Senhora T., o que a senhora há de encontrar nesse exame. Esta é uma jornada que eu, e isso muito me pesa dizer na condição de vosso humilde servo, não posso lhe acompanhar.
Há quem diga, Senhora T., que todo psicopata quer ser pego, e talvez também queiram estes que nos controlam, colocando pistas em nós para resolver o problema como se fôssemos todos parte de um grande quebra-cabeça. Assim é assim, assado e assado, cada um no seu devido lugar formando a imagem final. Viemos a esse mundo, Senhora T., para sermos quem somos e nada mais do que isso.
Se não há esperança? Não é isso que digo, Senhora T. Todos os dias há quem seja muito menos e há quem seja muito mais, nós só não sabemos. Nem todos são bons atores, Senhora T., e há sempre a arte do improviso, para a nossa derrocada final ou, quem sabe, nossa enorme sorte.
ROLETA RUSSA
Um aviso: esta é uma história de amor.
*
A porta abriu às duas da manhã e ele sabe as horas porque pouco antes olhou para o relógio que fica em cima do criado mudo, ao lado da sua cama, e viu os ponteiros com aquela luminosidade esverdeada apontarem duas horas. Pouco depois das duas da manhã a porta abriu, então. Quando a porta de entrada abre uma corrente de ar corre pela casa e é uma torrente de pressão em todas as outras portas e janelas, fazendo um pequeno tremor. Às vezes parece que a casa é à vácuo. Às vezes é. Todo o ar é sugado e respirar é impossível. Estava quase impossível quando ele olhou o relógio e agora que a porta de entrada abriu ele voltou a inspirar e expirar, porém com o coração acelerado. Da agonia da espera para o desespero. Não bem desespero, outra palavra. Ansioso. Uma nova agonia, uma agonia transformada. Da espera longa e contínua para a espera da iminência, o pé na beirada do precipício, o envelope nas mãos pronto para ser rasgado, o resultado finalmente próximo de ser revelado. Seu coração batia rápido.
Ouviu os passos, não estavam pesados, tinham ritmo contínuo, caminhar normal. Criou esperança. Mordeu os beiços. Ficou de olhos bem abertos, não sabe o motivo. Não via nada, só os ponteiros com a luminosidade verdade, e mesmo assim tinha que manter os olhos bem abertos, sabia disso, era preciso ter os olhos abertos para escutar com perfeição tudo o que estava prestes a acontecer do lado de lá. Do lado de lá da porta do quarto dele. Os olhos abertos para compreender. São os sentidos da infância na sua confusão de insuportável clareza. Até o piscar era mais rápido que o normal, não podia perder nenhum detalhe. Ouviu os passos e respirou fundo. Ia bem, ia bem.
A porta do armário que rangia foi aberta e seguido do ranger veio o som de algo caindo, debatendo, e espatifando no chão. Coração disparado mais uma vez. Escutou também a cama no quarto ao lado ranger, a dele não rangia, era nova, box, a dos pais tinha um estrado antigo e uns pés de ferro que denunciavam cada movimento. Era a mãe. Estaria acordada? Ele torcia para que sim. Torcia para que sim para que a espera não fosse solitária, ainda que separados por uma parede e pelo silêncio, se ela estivesse acordada ele saberia que não estava sozinho. É um conforto. Junto com o que espatifou no chão ouviu um resmungo, Ê, caralho, e o vidro ia tilintando enquanto o pé provavelmente chutava os cacos para perto um do outro. Conseguiu ouvir a vassoura tocando o chão, ssssshp, sssshp, e o vidro correndo para cima do plástico da pazinha. Do desespero total para um estranho reconforto, estava limpando, a consciência presente. Sim, sim, tudo estava bem, foi só um acidente.
A pressão da porta da geladeira sendo aberta também tinha seu som característico. Duas da manhã, pouco depois, ali onde moravam não havia movimento nas ruas, era um carro ou outro que passava com o farol iluminando as janelas, esporádicos. Tudo era escutável, perceptível, até o não-dito. O segredo era manter os olhos bem abertos, ele sabia, por isso encarava a escuridão escrutinando por cada onda sonora emitida. A água caindo no copo. A tampinha sendo rosqueada de volta na garrafa. A porta da geladeira fechando de novo. A água descendo pela garganta. Gulump. Gulump. O copo de vidro sendo colocado em cima do tampo de granito da pia. Um pequeno arroto. Não, não era nada, só tomou água rápido demais. Será? Ou será? Não, não sei. Piscou firme, mantendo os olhos fechados por dois segundos. Limpar a visão para escutar melhor. A torneira da pia foi aberta, depois fechada. A pequena luz que entrava por baixo da porta vinda da cozinha sumiu e os passos voltaram, aproximando-se, aprochegando-se, vindo, ritmados como as batidas do peito do menino.
Do banheiro, então, não se perdia um movimento, era de frente para a porta do quarto dele. A porta do banheiro se abriu, os passos entraram e a porta não se fechou atrás. Som perfeito. O assento da privada levantado e tocando a tampa, o plástico se chocando. E então o arco da urina atingindo a água da privada de uma pequena altura, com seu som particular de uma cachoeira doméstica. Um, dois, três, quatro. Quatorze segundos. Quatorze segundos era tempo em excesso, ele calculava quando fazia xixi, não dava seis, no máximo. Mas ele era menino, criança faz menos xixi, a bexiga menor. É isso, pensou. Ou. Ou o excesso de trabalho do fígado, o excesso de líquido no corpo, a necessidade de urinar para o corpo se purificar. Havia visto na internet que isso acontecia. Não, poderia ser a água que tinha tomado na cozinha. Só isso, nada mais. Ou será quê? Colocou-se em uma disputa com as próprias ideias, argumentando e contra argumentando no silêncio do próprio pensamento e sendo sem dúvida parcial pela conclusão a que desejava, em desespero, em pânico, chegar. Mas não chegava. Não era bobo. Era menino, criança. Não é bobo, por isso tem os olhos abertos.
Engraçado como ideias têm seu próprio som. Nesse duelo interno deixou de ouvir o que acontecia lá fora, mesmo que seus pensamentos não fizessem barulho algum eles, de alguma forma, calavam tudo. Por isso não ouviu quando a descarga mandou a urina e a água da privada embora pelo encanamento, nem quando a torneira foi aberta, fechada, a água com pasta de dente cuspida, a boca lavada e a luz se desligou. Por isso foi pego de surpresa, sobressalto, quase pulou da cama quando a porta do próprio quarto abriu. Fechou os olhos. Conseguiu reagir no tempo absoluto. Fechou os olhos e fingiu dormir, temeu que tremesse de tão rápido que o peito batia. Ouviu os passos abafados vindo em sua direção. A presença se inclinando sobre ele, escondido sob o cobertor vermelho e azul do Senninha, e em seguida o rosto áspero de barba feita tocando sua bochecha. Respirou fundo. Bem fundo. Sentiu os lábios secos do pai.
Inspirou o máximo que pôde.
Inspirou tudo.
Todo o ar que há nesse mundo.
E não sentiu o cheiro da bebida.
Quando a porta do seu quarto se fechou atrás do pai que saía, o menino sorria de olhos fechados. Por aquela noite havia evitado o mal que ele em circunstância alguma poderia controlar além da própria ilusão.
A HISTÓRIA DOS HOMENS
O mundo não é justo pois a ele não importa o conceito de justiça, já que não se trata de uma ideia natural, como a água correndo rio abaixo e as nuvens se formando e a abelha movendo a própria vida com asinhas tão pequenas e um ferrão dolorido, o mundo se ocupa de suas próprias criações e a elas confere o bom funcionamento que vemos há tanto tempo, não sem um ou outro acontecimento relevante que parece catastrófico mas, passado o devido tempo, mostra-se como mais um de tantos ciclos, e aí se incluem os dilúvios e os meteoros e o que mais que se queira inserir. A justiça, por seu lado, é mais uma de tantas criações humanas, e estas, o que se sabe quase sem ser necessário dizer, têm sua própria cota de vasta falência, o que apresenta duas coisas distintas, a primeira é a pouca confiança que se pode ter em ações oriundas de mãos humanas, e a outra é a extrema confiança que se pode ter na força da insistência dessas mesmas mãos. Ao mundo, portanto, se for dirigida a pergunta Por que não é justo?, só uma resposta pode ser dada: porque não sei como ser.
E assim como o mundo a ela também escapava o conceito de justiça, mas ela ainda haveria de aprender no futuro, e naquele instante o que ela sabia é que a coisa não podia permanecer do jeito que estava. Ela estava sentada no canto da quadra, encostada no alambrado, e a bola rolava sobre o concreto e o que ela fazia com mais força, além de segurar as lágrimas, era repetir para si Eu quero jogar, eu quero jogar, eu quero jogar, e essa ideia repetida diversas vezes quando posta frente a frente com a realidade de que ela, dia após dia, só ficava do lado de fora encostada no alambrado, gerava no seu peito uma enorme confusão de dor e raiva. A dinâmica da coisa era toda muito simples em um ordenamento não escrito próprio da infância, que é regido, na maior parte das vezes, pela inocente crueldade. Eles se reuniam todos lá a partir das dezenove horas, com alguém levando a bola, e os times eram divididos a partir da escolha dos dois melhores jogadores, que eram alçados a esse posto de maneira silenciosa, por se tratar de conhecimento comum, e na ausência de um dos dois o terceiro melhor escolheria, e depois o quarto, e depois o quinto, de maneira bastante simples e funcional. Eram sempre dois times de quatro jogadores cada, e como os meninos eram, no total, onze, sempre três ficavam de fora e entravam no time que perdia, escolhendo quem deveria sair. Com ela, eram doze. Desde a primeira vez que ela os viu jogando, quis participar. Subiu para casa, trocou a sandália por um tênis e disse Pai, vou descer jogar, e ele disse Anabela, jogar o quê?, e ela respondeu Futebol, pai, e ele disse Com quem?, e ela disse Com os meninos, e ele ficou em silêncio e ela entendeu isso como aprovação e saiu correndo, mas o que acontecia era que seu pai não sabia bem o que dizer e por isso não disse nada. Quando pensou nas palavras, ela já havia saído pela porta, e o que ele pensou foi Boa sorte, filha. Quando ela desceu os times estavam sendo escolhidos e ela disse que queria participar. Todos riram. Ela repetiu. Riram mais uma vez. Ela ficou vermelha e perguntou por qual razão eles riam, e eles disseram que ela não podia jogar e ela disse Eu posso, sim, e um deles, o terceiro melhor jogador, respondeu dizendo Não pode, você não sabe jogar, e ela respondeu Como você sabe se eu sei ou não sei?, e ele disse Sabendo, e ela fechou a cara e só conseguiu repetir Eu também quero jogar. Os times foram escolhidos e ficaram três meninos de fora, além dela. Quando o jogo acabou, depois de dois gols, o que poderia ter acontecido também caso se passassem cinco minutos sem que um dos times fizesse dois gols primeiro, os três de fora entraram e ela foi entrando, também. Um deles disse Você não pode, e ela perguntou Por quê?, e a melhor resposta que lhe veio à cabeça foi Só pode entrar três, se entrar quatro muda o time todo, e ela questionou E daí?, e a resposta definitiva foi: é a regra do jogo.
Isso se repetiu várias vezes, e ela sempre ficava sentada no alambrado, esperando sua vez que não chegava. Pediu para o pai comprar uma bola e ele comprou, e quando dava vinte e trinta, a hora que o jogo em geral terminava, ela subia, pegava a sua bola e descia para ficar chutando sozinha contra o gol. Até que um dia a maré virou: durante o jogo um dos meninos deu um bico na bola, fazendo com que ela passasse por cima do alambrado e acertasse no arame do muro. O couro rasgou na hora e a bola foi esvaziando. Todos olharam para a cena como quem diz adeus para o parente que morreu. Estourou a câmara, disse o segundo melhor jogador, e todos assentiram. Era um desastre. Era a única bola que eles tinham, e ninguém havia pensado em comprar outra por que também não haviam pensado na possibilidade da tragédia, o que é muito próprio de meninos que logo viram homens, a certeza da infalibilidade que não têm, o que é óbvio, suporte nenhum na realidade. A menina, porém, ria. E eles perguntaram por qual razão, na hora em que ela se virou e correu para dentro do prédio. Voltou dois minutos depois com a bola embaixo do braço e teve a certeza de ver pelo menos um olho brilhar e um queixo chegar perto do chão. Era sua vitória, o momento pelo qual ela tanto esperava. Podemos jogar com a minha, disse, e eles concordaram. Mas antes de o jogo recomeçar, ela disse Só que eu quero jogar também. Eles se entreolharam, ela era dona da bola e essa também é uma regra do jogo, o dono da bola pode jogar. Mas ela era menina, e agora havia um conflito entre duas regras e nenhum deles, glória, sabia como resolver aquilo. Tiveram que concordar. O que aconteceu em seguida, porém, é um exemplo de como a solução de conflitos é geralmente aparente. Ela entrou na quadra, mas ninguém jamais tocava a bola na sua direção, e ela corria de um lado pro outro sem receber um passe sequer. Bufava, gritava, e a bola continuava indo para longe. Em um momento a bola sobrou e ela estava perto, então correu e deu um toquinho para frente, para escapar do marcador. Nesse instante o maior dos meninos, que era o pior jogador e o último a ser escolhido todas as vezes, resolveu provar o seu valor diante dos companheiros. Foi em direção à menina e acertou suas duas pernas com um chute, fazendo seu corpo magricela girar no ar e ela cair de lado no chão, raspando o rosto no concreto. Fez-se silêncio absoluto e até o próprio mundo, alheio às questões da justiça, parou para espiar por um momento. Ninguém disse nada. Ela não disse nada. Ficou no chão por seis segundos exatos e então o mundo voltou a girar. Ela se levantou com o rosto vermelho, segurando o braço, encarou o menino, que, sem saber o motivo, olhou para o chão, e assim, em absoluto silêncio, correu para casa.
Os meninos voltaram a jogar um pouco depois, sem comentarem o que havia ocorrido. Ao término, deixaram a bola no centro da quadra. O pai da menina foi buscá-la lá embaixo já tarde da noite.
*
Mas não pode um moleque desse tamanho fazer um troço desses.
Eu sei que não, César, mas o que você vai fazer, bater na criança?
É a minha vontade.
César.
Eu não vou bater nele, Marina, é óbvio, mas vou falar com os pais.
Não sei se vai adiantar, mas tudo bem.
Não pode, não pode fazer um troço desses.
A menina entrou na cozinha e encarou os pais sentados à mesa. Não fala com eles, pai, pediu, e o pai respondeu Você estava ouvindo nossa conversa?, o que nem ela respondeu, nem ele esperou resposta. Eu preciso falar com eles, aquele menino não pode fazer isso. Eu que quis jogar, pai, ela insistiu, e ele disse Eu sei, mas não justifica, e ela disse Não, pai, e ele disse Por quê?, e ela, engolindo a saliva, respondeu que ainda queria jogar.
*
Todo dia das vinte e uma às vinte e duas ela e o pai ficavam na quadra. Ela corria de um lado para o outro conforme orientação do pai, chutando com a direita, com a esquerda, saltando, cabeceando, passando, driblando.
Ao fim, deixavam a bola no centro da quadra. No dia seguinte, voltavam lá às vinte e uma.
*
Os dez estavam tirando time quando ela chegou e disse Eu vou jogar, e de novo o já conhecido entreolhar aconteceu. Dessa vez, porém, o segundo melhor não foi porque estava com catapora, e o terceiro melhor olhou para a menina e disse Eu escolho ela, para protesto geral, principalmente do quarto melhor, que se sentiu preterido por uma menininha de nada. Eu já disse que escolho ela, repetiu. Os times foram separados e entraram na quadra.
No primeiro passe que ela recebeu, a bola passou por baixo do seu pé e saiu pela lateral, fazendo todos rirem. Eu avisei, gritou um deles lá de fora. Ela não reagiu. Continuou o jogo e ela, de novo, foi feita de invisível. No apartamento o pai dizia Acho que eu vou descer lá, e a mãe respondia Não, César, ela te pediu pra não descer, e ele disse Mas e se acontecer alguma coisa?
Alguma coisa sempre acontece e o que aconteceu então foi que o adversário veio em sua direção, parou a bola e fingiu dançar na sua frente. Os demais riram. Ela não. Quando ele abriu as pernas, ela deu um toque leve com a ponta do pé e fez a bola rolar entre as pernas do menino. Deu a volta no rapaz e pegou a bola perto do meio da quadra e quando o pior de todos, aquele que a acertou em cheio, veio correndo, ela puxou a bola para trás e o moleque chutou o ar. Ninguém ria. Nem ela. Ajeitou a bola de lado, olhou para o gol e preparou o chute.
Mais uma vez o absoluto silêncio, até que o pé dela, usando um tênis branco e uma meia rosa, acertasse em cheio o meio da bola.
O que aconteceu depois é irrelevante, pois ao mundo tanto faz como tanto fez ser justo, o que podemos revelar é que ela recebeu, em um certo dia, um bilhetinho de amor assinado pelo terceiro melhor jogador do condomínio.
SHHH.
Pode-se considerar um milagre, sim. É um milagre. Não se pode tomar por milagre a referência bíblica, porque este milagre aqui é milagre cotidiano, não-comercial, e o milagre santo ocupa outro espaço, outra categoria diversa, é texto feito para circular de mão em mão, teor universal. Aqui, milagre da vida, existência, coisa miúda. A única que importa, aquela que ninguém ficará sabendo e, quem souber, esquece logo. Ainda que seja, milagre.
Milagre ter durado tanto tempo esse faz de conta que empreendemos, é talvez a ideia mais duradoura de todas, persiste ao longo dos dias, dos meses, de cada ocasião em que tudo pode desmoronar tão fácil assim. Quando menino vestia o uniforme verde da escola e quando o professor indicou a página do livro e o texto que deveria ser copiado, ao escrever a primeira frase sua mente puxou a memória que revelou: já copiei isso antes. Leu o texto rápido, passada de olho, e teve certeza: eu já copiei isso antes, ontem mesmo. Virou a folha do caderno e comparou sua anotação agarranchada com a impressão do livro e ali estava o atestado, a memória não falhara. Copiou ontem, era o mesmo texto. Olhou para os lados e ninguém dizia nada. Alguns escreviam no caderno, outros nem tinham a caneta entre os dedos, as unhas carcomidas ou sujas. As meninas já pintavam as unhas. Ele ia reparando. Um erro, equívoco, levantou-se e foi até o professor: esse texto já copiamos. O professor abriu os olhos por trás dos óculos e se remexeu na cadeira, que rangeu sob o excessivo peso. Não, não, você tá confundindo, disse para o menino. Não, professor, ele rebateu, nós copiamos ontem. Ontem foi outro, insistiu o professor. O menino se virou, andou até sua mesa, na segunda fileira, pegou o caderno e mostrou a folha com a data de ontem lá em cima e o texto copiado, o visto do professor ao final. O professor olhou para o caderno, para o menino, para a sala, e disse com a mão na frente da boca, confessional: sim, sim, copiaram ontem, mas não todos, eles nem perceberam, então vamos deixar assim, tá bom? Finge que é de hoje, deita na sua mesa e pode dormir. O menino voltou para o seu lugar, olhou o relógio em cima da lousa e ainda tinha mais de meia hora de aula. Apoiou a cabeça nos braços, fechou os olhos e, cheio de sono, não dormiu um minuto sequer. Vamos deixar assim, tá bom? Finge que é de hoje. Fingiria, estava fingindo, mas não era. E ainda que não fosse, não era isso que não o deixava dormir. Era como se todo o resto da sala não houvesse percebido e primeiro ele se sentiu muito esperto, rei de todos, para logo em seguida se sentir sozinho e estúpido e triste e por que isso ele não tinha palavras para explicar.
Mas seguiu o tempo. Hoje ele está sentado no meio de uma mesa com uma bonita toalha vermelha de natal, tem estrelas nas pontas. Sobre a toalha farto banquete está preparado. Sua barriga faz barulhos, brum, brrr, e os olhos ficam atentos na movimentação e os ouvidos captam as conversas paralelas e por um minuto ele gostaria de parar de ouvir e ver e ficar em absoluto silêncio, no escuro. Só que não é possível.
Não lembra mais qual texto foi aquele que copiaram duas vezes na sala. Ninguém mais percebeu, ele acha. Está errado, teve quem percebesse, mas a linha de raciocínio foi diferente: estava feito e portanto não precisava ser feito de novo e assim era só esperar o tempo passar. Teve quem percebesse, sim, mas não muitos. Quase nenhum além dele. O resto apenas seguiu a instrução e o professor seguiu melhor a dica dada ao aluno que o menino, fechou os olhos por trás dos óculos, recostou na cadeira, que envergou as pernas, e vez ou outra acordou com o barulho da própria respiração ofegante e grave saindo pela boca aberta. Veja, é o rumo das coisas. Um homem em uma canoa solitária que rema na direção contrária das ondas gigantes não vencerá o mar.
Não se rema contra a maré.
Por isso é um milagre. O destino da maré é numa queda d’água e lá embaixo é só pedra e carcaça destruída de tudo o que seguiu a receita cotidiana. Não adianta saber nadar. Não adianta saber remar. A água puxa, e puxa, e puxa, e te joga assim sem esperança na realidade da sua própria vida e ali tudo começa e tudo acaba, sem sair do lugar a não ser para baixo, cada vez mais para baixo. Há quem diga que o caminho que esse rio segue já vem marcado no sangue do bicho homem, DNA, de avô para pai para filho, gado marcado com futuro certo de abate. É um milagre, sem dúvida. Um milagre.
Na mesa ele não diz nada, não é mais menino. Ou é, é menino sim, de um jeito só seu, jeito seu de se sentir rei de tudo e logo depois estúpido e sozinho, como todo bom monarca, agora sabendo um pouquinho melhor das razões dessa súbita compreensão de tudo e consequente tristeza. Ah, pouquinho só, nunca se sabe tudo, vai-se fingindo. O que ouve na mesa não gosta de ouvir. Olhando de longe até um olho destreinado sabe que há algo de errado, ele não pertence àquela cena, é como meter atrás de Mona Lisa uma nave espacial ou trocar a toga do magistrado por uma sunguinha vermelha: destoa, desconecta, não cabe. Salta aos olhos da tela, da corte, salta o absurdo e faz corar quem vê. Por isso é um milagre. Na mesa ninguém parece perceber. Conversam alegremente sem notar, ou indicar notarem, a dissonante presença. Talvez pela proximidade, desfoca o objeto, função macro do olho humano tem limitações fisiológicas e psíquicas.
Ou, melhor dizendo, por um milagre.
Logo se serve a ceia e todo mundo se delicia. Ele come, está contente, come como o rei de todos e junto com a digestão vem a já conhecida sensação sem nome certo, que se caracteriza por outras sensações bem difundidas capazes de apenas em parte definir o que ocorre dentro dele. É saber que não pertence. E não saber como pertencer.
Ter aquela compreensão de súbito, um pouquinho só. A compreensão de que todos fingem juntos, coletivamente, continuamente, não saber que a lição é a de ontem, que os papéis são inventados, que as aparências estão ruindo e por isso não notam a sua inadequação. Notar iria demandar algo muito mais grave e insuportável: reconhecer a própria.
A barriga já não faz barulho algum.
PIADA DE JAPONÊS
Choveu como jamais havia chovido antes, isso é, choveu da maneira como choveu na semana passada e também na outra e há um mês, e no ano que ficou para trás, todas as vezes chuvas como jamais antes, e essa imprevisibilidade característica dessa chuva que nunca choveu antes e chove sempre gerou um compreensível caos na cidade, incapaz de lidar com uma situação de tamanha surpresa, realmente um ineditismo dos grandes, e por isso o que aconteceu foi aquilo que acontece quando o imponderável entra em campo, como já nos acostumamos: os mesmos faróis piscando, as mesmas ruas alagadas, o mesmo trânsito que não se move de jeito nenhum, a mesma água entrando pelos cornos, enfim, um dia como tantos outros, absolutamente inesperável.
É nesse contexto que tudo se deu e aconteceu.
Veio vindo o ônibus com seu letreiro ligado fazendo jogar água para os lados e as mãozinhas que se escondiam embaixo do toldo do ponto se ergueram e o motorista viu e ligou a seta para a direita e encostou o carro ali, para que toda aquela gente molhada que já esperava há muito, muito tempo desse conta de subir. Tinha bastante gente fugindo da chuva, mas não tanta gente entrou no ônibus, que antes estava vazio, tirando o motorista, o cobrador e um homem que sentava ao fundo. Entraram agora mais três pessoas e o motorista olhou, ninguém se mexeu, fechou a porta e engatou a primeira, no mesmo instante em que ouviu a voz lá fora dizer Ô motor, e acenar com a mão no ar, e ele abriu a porta de novo para o homenzinho de não mais de um metro e sessenta e cinco subir com seu tênis de corrida, meias brancas na canela, uma bermuda azul marinho e uma camisa polo. O motorista olhou para o homenzinho e disse Tá dormindo?
Pronto.
O homenzinho mudou mesmo de cor, ficou verde, azul, vermelho, arco-íris, sabe-se lá a cor que a gente fica quando ouve algo e pensa Não, não ouvi isso, aquela cor de incredulidade, a cor da surpresa, a cor de ser pego de calças curtas, a cor de estar mesmo com a mão metida no bolo antes do parabéns e ser flagrado. A cor que a cidade fica quando chove essa chuva inesperada que chove sempre. Essa cor aí. Foi assim que o homenzinho ficou. Parou na escada e encarou o motorista, que já olhava para frente e tocava a barca bem devagar na infinitude de carros parados um depois do outro. Tá dormindo?, o homenzinho repetiu. O motorista olhou e disse É, tava dormindo?, e o homenzinho repetiu mais uma vez Tá dormindo? O motorista não respondeu. O homenzinho não repetiu outra vez, agora disse Tá me tirando?, e o motorista Qual foi, porra?, e o homenzinho Você tá me tirando?, e o motorista disse Fica de boa.
TÁ
ME
TIRANDO?, falou assim, pausadamente pulando parágrafo mesmo.
Porra, respondeu o motorista, tô te tirando sim, senta aí. E o homenzinho, é claro, não obedeceu. Agora sentia é raiva mesmo, estava roxo, logo morria sem ar. Tá me tirando, então, tá me tirando, balbuciou, sem sair do lugar. Deu um passo para frente, chegou mais perto do motorista. Qual seu nome?, e o motorista fez que não ouviu. Fala seu nome aí, insistiu o homenzinho, e o motorista olhou para ele e perguntou: meu nome? É, seu nome, falou o homenzinho?
VOCÊ
QUER
SABER
O MEU
NOME?, pontuou o motorista.
Quero, você tá me tirando, disse o homenzinho. Meu nome é vai pra casa do caralho, respondeu o motorista, e aí a conversa já tinha a atenção de outras quatro cabeças, a do cobrador e dos três passageiros que entraram logo ali atrás. Não vai me falar seu nome, Não vou te falar meu nome, Fala seu nome, Meu nome é o caralho, Fala o seu nome, Não vou falar porra nenhuma, Tá me tirando, Tô te tirando, vai pra casa do caralho, foi indo nisso, na troca de afabilidades. O homenzinho sentou no banco logo atrás do motorista e essa conversa, que não se faz mesmo necessário ficar reproduzindo ponto por ponto, é óbvio que a ideia está bem passada, continuou acontecendo. O cobrador então gritou Fica de boa aí, meu, já foi. O homenzinho virou a cabeça, olhou para o cobrador e pensou por um segundo. Pensou e decidiu: era necessário explicar o caso para o cobrador, para que ele entendesse, para que ele compreendesse bem. Levantou do banco e foi até lá dizendo Não, eu tô de boa, mas deixa eu te explicar. O cobrador sabia que não tinha opção e ouviu enquanto o homenzinho fazia uma metáfora entre o Tá dormindo do motorista e o mau atendimento de um médico no pronto-socorro. O motorista, de olho na pista e ouvido atento, não concordou com a versão da história do homenzinho e também pensou por um segundo. Pensou e decidiu: não vai ficar assim, contando as coisas desse jeito até parece que sou um filho da puta e eu não sou. Gritou Não foi nada disso aí não, ô porra. Como não?, replicou o homenzinho. Não sendo, eu só falei Tá dormindo e você ficou aí cheio de nove horas, disse o motorista. Sim, porque você tava me tirando e eu não gosto que me tirem, emendou o homenzinho.
Que te tirando o que, porra?, disse o motorista. O homenzinho deixou o cobrador e voltou para o banco atrás do motorista. Tá me tirando, o jeito que você falou é me tirar, falta de respeito. Um dos passageiros, uma moça de trinta e dois anos que voltava da terapia e tinha fones nos ouvidos, mas sem música tocando, interveio e disse Não precisa brigar, gente. O homenzinho logo respondeu Não tô brigando, tô conversando. O motorista concordou, Não tô brigando também não.
Nesse momento eis o que passava na cabeça de cada um:
Na do homenzinho: se eu tivesse um trinta e oito eu metia dois tiros nesse filho da puta que tá me tirando, mas não agora, porque tá tarde, tá chovendo, eu preciso chegar em casa, mas chegando eu metia dois tiros, mas é circular e têm mais gente pra ir embora, não preciso atrapalhar a vida de ninguém, melhor, se eu tivesse um trinta e oito eu ia na garagem da empresa e esperava ele chegar e metia dois tiros nesse filho da puta.
Na do motorista: se eu previsse o futuro eu não abria a porta, não, eu dava ré e passava por cima desse babaca do caralho, talvez na verdade se eu pudesse prever o futuro eu veria os números da sena e jogaria e não dirigiria mais ônibus, compraria uma BMW e acharia esse cuzão e metia o carro em cima dele e aí, ricaço milionário não ia nem pra cadeia, era isso, seis números da sena compra a bmw e passa em cima desse arrombado.
Os outros dois passageiros observavam, sem, é óbvio, acesso aos mistérios da mente só aqui revelados, a enfermeira de vinte e sete anos com sua calça branca e crocs no pé e unha feita pensava ora na briga que não era briga ora se aquele ônibus parava mesmo perto do metrô, e o homem loirinho de barba rala e óculos redondo fazia os exercícios de alemão no aplicativo do celular, porque quando leu Goethe pela primeira vez ele soube, mesmo sem conhecer uma só palavra em alemão, que aquela tradução não passava exatamente o que o autor queria dizer e, por isso, ele iria aprender alemão e uma vez aprendido alemão iria traduzir Goethe e depois de traduzir Goethe compararia as versões e demonstraria por A mais B que a versão antiga era uma merda e assim teria a tradução definitiva de Goethe com seu nome atrelado, vivendo como um carrapatinho na eternidade do escritor alemão, feito a maior parte de nós.
Enquanto se caracterizava os passageiros a discussão continuou e não se sabe bem em qual ponto passou de discussão para diálogo. O motorista ia dizendo Mas eu só disse tá dormindo brincando, numa boa, você que ficou bravo, e o homenzinho respondeu Mas se te falassem tá dormindo você não ia ficar puto?, e o motorista disse Não, ia ficar na boa, se eu passasse do ponto e você falasse Motor, tá dormindo?, eu ia ficar na boa, e o homenzinho disse Você falando assim, e o motorista disse Não tava te tirando, e o homenzinho É, falando assim, agora eu entendi, e o motorista Pois é. Assim o motorista começou contar um caso de uma passageira mau educada e o homenzinho chegou até mesmo a pedir desculpa
Agora que você explicou. Pois é, desculpa qualquer coisa também, concordou o motorista. Não pararam mais de falar, entre risadas e histórias. A mulher da terapia finalmente ligou a música no celular e quando chegou no seu ponto apertou o botão de parada, viu a luz acender, esperou o ônibus se aproximar do lugar para levantar, ir até a catraca e falar para o cobrador Viraram melhores amigos, roçando o dedo médio no indicador na clássica demonstração de proximidade entre duas pessoas, e o cobrador deu risada. Ela encostou o cartão na máquina, passou pela catraca e desceu quando a porta abriu.
Ouviu-se o motorista dizer Conta essa pro cobrador, conta essa pro cobrador. O homenzinho veio andando e rindo e parou do lado do cobrador. Ouve essa piada, gritou o motorista. O cobrador e os dois passageiros ficaram atentos. O homenzinho começou Eu sou descendente de japonês, e o cobrador disse É óbvio, com um risinho. Então, continuou o homenzinho, a pergunta é a seguinte:
Qual a diferença do japonês e de noventa e nove reais?
O cobrador perguntou Qual?
O rosto do homenzinhou se contraiu em um sorriso de quem sabe que vai fazer rir. Os dois são quase cem pau.
Hahahahahahahaha, o motorista riu de novo, o cobrador riu também, os dois passageiros riram, a enfermeira sem culpa, pensando em lembrar da piada para contar depois, e o loirinho questionando se era ou não xenofobia, porque, afinal, ele era descendente de japonês.
Logo depois disso chegou o ponto do homenzinho, que apertou a mão do cobrador, apertou a mão do motorista e desceu pela frente, sem pagar. O motorista apertou duas vezes a buzina enquanto se distanciava e o homenzinho ergueu o braço dando tchau. Ainda chovia e tinha mais duas voltas para fazer naquela linha. Quando finalmente acabou, o motorista deixou o ônibus na garagem, disse Até mais para o cobrador e foi para casa. Ele chegando em casa disse para a esposa Você não sabe a figura que me apareceu hoje. O cobrador, na sua própria casa, viu a mãe assistindo algum pastor em alguma emissora de tevê e depois do Boa noite disse Só tem maluco nessa cidade, mãe, e ela disse Falta de Deus.
O que não foi dito, e ao leitor mais atento isso por certo não passou desapercebido, foi sobre o homem que estava no ônibus desde o início, sentado ao fundo. O leitor íntimo das artes literárias diria que foi uma artimanha para manter a atenção no texto, no que tem razão, pois falar do homem seria expor o gran-finale e estragaria toda a surpresa da coisa.
A razão é que o homem sentado ao fundo, ao contrário do homenzinho, tinha mesmo um trinta e oito metido na cintura, coberto pela camisa. E era um homem de paciência curta, sendo certo que, e isso se pode afirmar com a certeza e se pede a quem lê um voto de confiança, se ouvisse todo o bafafá desde o Tá dormindo primeiro até o Tá me tirando esse homem teria se irritado, puxado a arma e esvaziado o tambor tanto no motorista quanto no homenzinho. A vida se acaba assim mesmo, desse jeito. Estúpido, estúpido, estúpido.
Só não aconteceu isso porque chovia essa chuva inesperada, que ninguém podia prever. E essa chuva batia no vidro do ônibus igual batia na parede do barraco em que ele vivia lá nos anos há muito passados e isso despertou aquela conhecida memória afetiva que pesou nos seus olhos e o fez dormir um sono contente, assim o homem, citado lá no começo e esquecido até agora de maneira proposital, dormiu como se não existisse realmente enquanto tudo se desenrolou, não matando nem ao motorista, nem ao homenzinho.
Assim mais uma tragédia anunciada foi evitada nesse mundo, o que acontece com frequência impressionante dadas as variáveis e particularidades da natureza humana, sempre tão ligadas a necessidade de destruição e caos, como um imã de desgraças, por isso surpreende como surpreende essa chuva que mais eventos desastrosos não aconteçam por dia. A historinha do homenzinho e do motorista, portanto, é o que podemos mesmo chamar, ao cabo e ao rabo, de uma história de milagre.
Ainda há quem diga que nesse mundo não existe Deus.
INTEMPÉRIE
Um acontecimento infeliz; desgraça; catástrofe; infortúnio.
Tinha planejado, bem planejadinho em um nível de detalhes que ficava ali na fronteira nebulosa do perfeccionismo e da compulsão psiquiátrica, cada passo preparado, todos os relógios, de pulso, do celular, do criado-mudo, da parede ajustados no mesmo segundo e a cabeça pronta para o comando de executar, em nome do Pai, do Filho, do Espirito-Santo ao acordar e lá vem mais um dia, sabia onde queria chegar e como chegar, questão de tempo até o sucesso, isso é, o primeiro milhão, o financiamento quitado e o fundo de investimento tanto que vira notícia de jornal, money makes money, repetia, risonho, dia após dia o cabelo penteado e a barba aparada e a camisa bem passada dentro da calça, sem marcar, sem nada, quase sem parecer real, olhando de longe até se diz é mesmo gente?, é mesmo homem?, não é um manequim?, é e não é, planejamento a nível atômico feito processo fabril que Ford olharia e diria que satisfação, que satisfação, tudo bem planejado, planejadinho, não fosse um detalhe. O detalhe do peito que parou de bater. Peito que parou de bater e ele caiu de cara no prato italiano do seu restaurante preferido e o molho voou para cima, para os lados, grudou no cabelo, na camisa, no meio do dia. Isso se chama mudança de planos. Tudo estava muito bem planejado até o peito parar de bater porque as veias e artérias não suportaram o fluxo e plau estoura o coração e assim, money makes money é verdade mas morto não investe e ele ficou lá de cara no prato de comida com gente olhando assustada e teve até quem chorou, uma pessoa, no máximo duas, mais pelo desespero, gente que chamamos de frescurentas, dramáticas, enquanto vinha a ambulância apenas para atestar o óbvio. Morreu, mesmo, disse o socorrista, mas tenho que esperar o médico. Por quê?, quis saber o gerente. Porque apesar de morto, o que ele está, quem diz que está mesmo é o médico, eu não posso dizer, respondeu o socorrista. Você acabou de dizer, disse o gerente. Pois é, mas o que eu digo não vale nada, terminou a conversa o socorrista. Quando o legista chegou, deu a palavra de valor: morreu morto mortinho. Curioso que a própria ascensão desse nosso sonhador adefuntado se deu no que chamam de golpe do destino, um colega que também caminhava apenas para cima e vinha se destacando e crescendo sem parar, ocupando o lugar que só um homem pode ocupar, isso é, o centro das atenções, um dia depois de olhar os números e sorrir sentiu uma pontada na cabeça que quase o botou no chão desmaiado, por isso foi ao médico e entrou em uma máquina para que seu cérebro fosse melhor analisado e no retorno ao consultório ouviu o médico perguntar Bebe muito?, e sua resposta foi Socialmente, só, e o médico insistiu O que é socialmente?, e ele disse Uma, duas vezes no máximo, e o médico emendou No mês?, e ele respondeu Na semana. O médico anotou e perguntou E fumar, o senhor fuma?, e ele disse Para relaxar, só, e o médico anotou também, questionando E o senhor se estressa muito?, que recebeu como resposta O trabalho é assim. Falar do trabalho fez o médico perguntar E o senhor trabalha muito, também?, e ele respondeu O suficiente, E o suficiente para quê?, perguntou o médico. Para chegar ao topo, disse, rindo, e o médico ergueu a sobrancelha e não devolveu o sorriso, voltando os olhos para o exame. E então? Bem, disse o médico, parece haver um obstáculo nessa sua jornada para o topo, e da sua voz não se pôde extrair sarcasmo ou ironia, apesar de a frase assim, escrita, parecer um acinte. E qual é?, perguntou meio preocupado, meio absoluto de si, certeza essa que só quem nunca perdeu está acostumado a ter. O médico juntou a ponta do indicador na ponta do polegar, formando a circunferência aproximada de uma bolinha de pingue-pongue e disse Um caroço desse tamanho dentro da sua cabeça. Bem. Bem. E o que fazemos? Nada, na verdade, disse o médico. E assim ele saiu da consulta e no mesmo dia voltou ao escritório, se desfez de cada investimento, limpou a mesa e foi viver no sítio, onde se não morreu logo morrerá, e nosso agora falecido sonhador ocupou o seu espaço, qual seja, o centro das atenções, reforçando a validade da máxima de que a um, a desgraça, ao outro a oportunidade.
Que horror.
O quê?
Essa história, um horror.
Não creio que seja, se reparar bem.
O que se tira disso tudo? Que não devemos planejar nada?
Não, devemos planejar, creio, não que esteja em posições de dar conselho.
Planejar para ter um tumor do tamanho de uma bolinha de pingue-pongue na cabeça ou cair de cara no macarrão?
Não era macarrão, era lasagna.
Que seja, em um prato de lasagna.
Pode ser que aconteça, planejar não é o problema, ou você crê que foi o planejamento que causou tudo isso? Não é o planejamento um vilão desses de cinema, fez plano e então o destino te bota de quatro e ri das suas intenções, não é assim. Mas algo mais sútil, se reparar bem, reparar bem profundo na questão toda, que é planejar mas não fazer da vida só o planejamento, que os planos têm essa mania curiosa de serem desfeitos pelas circunstâncias, ou seja, compreender que a vida é isso, planejar e se frustrar e sofrer e fazer novos planos, crescer e caminhar em linha reta ou zigue zague ou quem sabe dar dois passinhos para trás e ver melhor o que é que vem pela frente, e então conhecer alguém e mudar tudo e se decepcionar e mudar tudo outra vez e beijar e sentir o pau endurecer e fazer planos imediatos de casar e ter oito filhos cada um com um nome começado em éfe e depois de gozar esquecer disso tudo, ou melhor, repensar tudo isso, e construir e destruir e construir e destruir e ver o que sobra, e da sobra fazer algo novo e de algo novo fazer algo novo e assim ir dia após dia, planejando, sem dúvida, mas não só planejando, executando enquanto se anda, olhando não apenas para o ponto futuro do plano executado mas para o plano presente da execução, e desfrutar dessas coisinhas que vamos tendo e chorar dessas dores que vamos sentindo e explodir no prazer que nos dá a carne e o sexo humano e relaxar com a mão enfiada nos pelos do cachorrinho enquanto passa na tevê a rodada do futebol, que seja, ana maria braga ou algo assim, não importa o canal, aproveitar as páginas do livro ou fechar de vez o livro de páginas inúteis e palavras mortas, e beber bastante água quando sentir sede e mijar quando sentir vontade e dormir quando se tem sono e compreender que nem sempre se poderá fazer tudo isso e que a muita gente não é dado fazer nada, não é dado fazer planos, e a própria ideia de planejar já é um privilégio que não pode se encerrar em si mas deve ser meio, apenas meio, o fim é isso, compreender-se e evoluir e viver e sofrer e ser feliz vez ou outra, quando possível.
Até morrer?
Até morrer.
Que horror, que horror.
Já eu acho bonito.