A arte perdida da tarefa silenciosa

Como o excesso de estímulo transforma tudo em falta de estímulo

Gabriel Schincariol Cavalcante
6 min readMay 22, 2023
Eva Babitz e Marcel Duchamp jogando xadrez | Julian Wasser
Eva Babitz e Marcel Duchamp jogando xadrez | Julian Wasser

Este texto foi publicado originalmente na newsletter Eu posso estar errado

Quando vou lavar louça, passo cinco ou seis ou sete minutos procurando um vídeo no YouTube para me acompanhar. Quando vou estender roupa, procuro algum podcast para me acompanhar. Quando vou ao banheiro, passo a maior parte do tempo rolando a tela do reels. Quando não estou fazendo nada, ou mesmo que esteja fazendo alguma coisa, eu pego meu celular e abro as redes sociais para ver se há alguma notificação e, se não há notificação, para ver se alguma coisa aconteceu.

Que coisa?

Qualquer coisa.

Qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer tempo.

Alguma coisa que me interesse, em algum lugar que me interesse, em um tempo que me interesse?

Eu não sei, não importa. Qualquer coisa que tenha acontecido e que possa, ainda que remotamente, me interessar.

Tenho percebido esses hábitos já há algum tempo e não é como se eu estivesse aqui descobrindo o fogo: todo mundo com capacidade de formar uma sinapse meia-boca sabe que o estágio atual da tecnologia da informação é um bombardeio sem fim e multidirecional de novidades e estímulos. É difícil não fazer nada. É difícil ficar em silêncio.

Primeiro, os rótulos de desodorante no banheiro, foi como eu chamei o texto em que falei brevemente sobre a minha incapacidade de fazer uma coisa só.

Reconheci ali o caráter degradante desse fluxo informacional insano para a minha própria saúde. Reconhecer em palavras, porém, não é superar. Reconhecer a narrativa não é reverter a narrativa.

O que eu fiz desde então: eu desativei as notificações das redes sociais, tirando o WhatsApp. Por quê? Porque no WhatsApp pode chegar uma mensagem urgente a qualquer tempo. No WhatsApp alguém pode tentar falar comigo sobre algo importante. No WhatsApp a vida não espera.

É isso que eu digo para justificar. É isso que se passa na minha cabeça. O espaço foi dilacerado pelo tempo — a distância é uma mera sugestão — , e o tempo foi dilacerado pelo presente — não se pode esperar mais nada. É tudo aqui. É tudo agora.

E se você não está aqui, agora, você está distante e atrasado. E quem está distante e atrasado, camarada, perde a chance. Qualquer chance.

Perde uma mensagem importante no WhatsApp. Duas horas longe do celular e os grupos se enchem com cem, duzentas mensagens, e você perdeu tudo. Eu perdi tudo. Fiquei de fora. Fiquei distante. Fiquei para trás.

É isso que eu me digo. É isso que se passa na minha cabeça.

Mas nem tudo é aqui, é? Nem tudo é agora. Nem tudo é para agora. O espaço, dilacerado pelo tempo, permanece aqui em outra configuração. Fui para Boituva no dia das mães e só no dia das mães percebi que aquele dia, quatorze de maio de dois mil e vinte e três, fazia sete anos da morte da minha mãe. Então eu acordei cedo no dia das mães e fui correr. Corri cinco quilômetros no caminhódromo ao lado da casa da minha avó, e o espaço ainda existia. Meu corpo me dizia que o espaço e o tempo existiam. Corri cinco quilômetros e me senti cansado, minhas pernas cansaram, meu pulmão cansou. Corri cinco quilômetros em vinte e cinco minutos. O tempo passou. Depois eu voltei para a casa da minha avó, tomei um banho, troquei de roupa e saí para a rua. Caminhei nas ruas que eu conheço como a mim mesmo, e desconheço como a mim mesmo: muita coisa permanece igual (eu permaneço, em parte, igual), mas a cidade já não é mais a mesma (eu sou outro do que um dia já fui). Caminhei pelas ruas que eu conhecia e as redescobri. Fui até a antiga casa em que meu pai morou e a fachada é outra. Nas casas vizinhas vi brinquedos espalhados pelas garagens e lembrei da minha própria infância e pensei nas crianças daquelas casas, das infâncias que agora se desenrolam, e em como aquelas crianças e eu próprio não temos nada em comum, mas aquele lugar, em que ambos, sem jamais se encontrarem, cada um no seu tempo, construíram as memórias iniciais de suas vidas. Revisitei o tecido duro daquelas memórias, que já não compartilho com ninguém — onde estão todos os meninos que cresceram comigo naquela rua? De lá fui até o cemitério visitar o túmulo da minha mãe. Lá estava a placa com seu nome. Lá estava a materialização da sua partida. Deixei para ela um recado de amor e saudade. O espaço existe — entre nós ele é enorme e eu sinto sua falta. O tempo existe — ele passa e eu sinto a sua falta.

Agora estou de volta ao meu apartamento, no centro de São Paulo, e ouço da rua os barulhos infinitos da capital. Ouço a voz das crianças brincando no novo programa de habitação provisória da prefeitura que foi construído ao lado do meu prédio, sob protestos irados dos moradores da região. A voz das crianças brincando me causa alento, como se estivéssemos vivos em um lugar em que é, enfim, possível viver. Ouço a música distante. Ouço os carros. Ouço os gritos.

Da minha janela eu vejo os prédios e os carros e as luzes e as crianças. O espaço existe. Quando pelo fim da tarde o sol começa a se pôr, eu me sinto contente, engrandecido pela minha existência compartilhada entre tantas outras existências. Quando o sol começa a se pôr, o tempo existe.

Então qual é a urgência? O que não pode esperar?

Eu não voltarei para a rua em que meu pai morava, porque aquela rua não nos pertence mais. Eu não dividirei a mesa com a minha mãe no café da manhã outra vez, porque só a sua ausência se faz presente.

Por que eu estou tão apressado? O que é que não pode esperar?

Por que tanto barulho o tempo todo?

As notificações estão desativadas, mas eu abro as redes sociais, ansioso pela próxima novidade. Pela próxima mensagem. Ansioso por não perder nada, quando, na verdade, não há nada para se perder.

É tanto estímulo a todo momento que eu não me sinto estimulado.

Eu me sinto cansado. Quando eu me sento no sofá, mesmo que eu não tenha feito muita coisa é como se meu corpo dobrasse de peso e meus ombros afundassem e minha cabeça ficasse letárgica. Não é cansaço: é exaustão. Exaustão de tanta informação. Exaustão e claustrofobia. Eu quero descansar, mas eu não sei como, então pego o celular e começo a rolar os reels. E o cansaço nunca passa, porque o estímulo nunca acaba. E esse estímulo nunca estimula nada, apenas a próxima informação, um ciclo sem-fim da exaustão humana.

E dentro desse ciclo sem-fim de super-estimulação não-estimulável, mas retroalimentável, eu não consigo escrever. Não consigo focar no ritmo das palavras que escrevo sem pensar nas notificações que estou perdendo. Não consigo ser embalado pelo ritmo das frases e dos sentidos criados e inventados pelo texto. Não consigo ser abarrotado pelo flow da escrita.

É tanta informação a todo momento que eu não consigo captar informação nenhuma. Tudo passa por mim como se eu segurasse uma peneira e tentasse pegar um punhado de água pelos furinhos.

Enquanto escrevi isso aqui, o que foi que eu perdi? Nesse intervalo de silêncio — um silêncio ruidoso pelos barulhos da rua, da cidade, da gente, um silêncio humano — , o que foi que eu deixei de ouvir?

Muita coisa, descobrirei ao abrir o Twitter ou o Instagram ou o WhatsApp.

Muita coisa. E coisa nenhuma. Tudo está como era antes, mas eu não.

--

--

Responses (1)