Tive cachorros, tive oceanos,
Tive um carrinho que se movimentava
Pela força do motorzinho
Que reagia aos toques dos meus pés
Nos pedais de plástico,
Tive o sol, muito sol,
Tive pai e tive mãe,
Não tive, em algum momento,
Não me lembro qual,
Medo,
Apenas a doce certeza
De que o amanhã
Estava prometido nas promessas
De uma infância tranquila:

Basta correr ao quintal e riscar a terra
Para convencer as formiguinhas
A seguirem o melhor caminho,
Eu me comovia.

Hoje tenho um diploma
E um salário no quarto dia útil

E uma dúvida urgente:

Para onde foi
Tudo aquilo que eu tive um dia?

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Quem crê em um passado imutável
é vítima de uma poderosa ilusão:

O passado se altera
no momento exato
de cada lembrança.

Ontem é um dia com
muitas formas:
uma hoje,
outra depois,
mais uma no dia seguinte.

Passado é a memória humana -

e se não somos nunca os mesmos
ao acordar de uma noite de sono,

como poderiam ser nossas memórias?

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ou Uma história sobre botânica

Sob a luz do sol
brincávamos com uma mangueira
fazendo as vezes de cachoeira,

sob a luz do sol
cresceram as flores pelo concreto.

Nós crescemos, também,
sob a luz do sol,
cheios de concreto, enormes,
já não brincamos mais.

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