O avanço das horas durante a madrugada
é acusação do tempo
ponteiros em riste, dizendo

no ritmo dos segundos que seguem
uns aos outros

que a escuridão está se alastrando
lá fora, pelas ruas
aqui dentro, bem fundo

que a noite irá se prolongar
ao infinito,

mas a acusação não se sustenta.

Você não acha que a manhã seguinte
irá chegar
então, um pouco depois das cinco
a cortina cobrindo a janela
já não impede mais a luz do sol

e o relógio silencia,

você ganhou
mais um dia.

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Quando eu afundava a mão n’água da piscina e a via, submersa, deformada, trêmula, os dedos todos disformes, eu não entendia. Não só não entendia: eu temia.

Era como se a minha própria mão se transformasse em outra coisa, e eu a puxava de volta para a superfície, ficando aliviado ao perceber que a minha mão estava, outra vez, normal.

Só depois entendi: os efeitos da refração, o movimento das ondas.

Só depois, muito depois, entendi: entre o que vemos e o que realmente é há um gap nem sempre transponível.

Os espelhos traduzem reflexos, mas às vezes a própria imagem refletida, como a minha mão infantil sob a água, afasta-se totalmente do objeto representado.

Certas distâncias, muito depois eu entendi, não se percorrem com as pernas.

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