27.2.21, sp-cps. 7:40

Gabriel Schincariol Cavalcante
3 min readFeb 27, 2021

--

caderno 2, notas

Cada dia fica pior. O brasil é um pesadelo que se vive de olhos abertos. Eu sempre consigo perceber no meio dos piores sonhos que estou em um mundo de fantasia, uma epifania que revela o caráter fictício do ambiente e, assim, me liberta. No brasil do mundo real, a única percepção é a do abismo. O pesadelo do sonho se encerra com o despertar (acordado ou não), e junto com ele se vão os monstros. No pesadelo concreto do bolsonarismo não há despertar evidente. Os monstros são de carne e osso. São homens e mulheres como nós, que choraram ao nascer e sentem dor quando a pele entra em contato com o fogo. Os monstros são feitos da mesma matéria da qual nós somos feitos. Essa é a parte mais aterrorizadora do pesadelo. Posso ser eu, também, uma pessoa terrível? Será a maldade a conduta natural e a bondade fruto de enorme esforço? Queremos (precisamos) crer que não somos iguais a esses seres abjetos, cuja representação máxima se encontra na figura do bolsonaro. Queremos (precisamos) acreditar que a barreira que nos separa no campo do caráter é firme, intransponível e livre de rachaduras. Mas será? Será que a mera crença é o suficiente? Será que basta negarmos em nós a presença dos traços do fascismo para que estejamos a salvo?

A minha resposta é não.

O silêncio cínico de quem teme o mal, que o rejeita, é a mais grave das rachaduras invisíveis na barreira. O não-ser, nesse caso, não se traduz em condição negativa — i.e., de deixar de ser, de deixar de agir -, mas sim uma conduta positiva: trata-se, sem dúvida, de um necessário agir. E este agir está diretamente ligado a reflexão sobre a situação concreta, sobre as próprias razões, em um minucioso e rígido ato de julgamento, que não deve ceder a tentação da complacência, nem ao envanecimento da arrogância — é essa ação constituída na e a partir da reflexão, em seu processo contínuo, evidenciada como práxis (p. freire), que possibilita o não-ser enquanto rejeição dos ideais autoritários, enquanto freio aos impulsos cruéis da mente, enquanto clara recusa do papel confortável de carrasco na dança das execuções.

Há, e é natural que haja em tempos de luta, de medo e de terror, desconforto em se manter fiel aos princípios balizadores de uma existência harmônica e fraterna. Essa existência, ainda que recheada das melhores intenções, não está livre de contradições.

Este é, afinal, um mundo contraditório.

É, porém, um dever de conduta reconhecer tais contradições em si próprio, mas não odiá-las, pois seria o mesmo que odiar a si, uma ação de desfechos perigosos. O dever é de reconhecer a contradição para transformá-la, pouco a pouco, em novas ações coerentes entre si e com o todo, usando a própria contradição pretérita (e eu sei o quão contraditório eu sou) como farto material de reflexão para uma renovada ação, cheia de significados e possibilidades.

Os homens, eles não estão prontos. O homem é e não é.

O homem está sendo, na sua formação dialógica (em travessia — gsv).

Só o homem que sucumbe totalmente ao fruto da maldade plena está pronto, o homem Hermógenes: nele, nada está sendo; nele, tudo é. Fixo e estático. Ação vazia de reflexão, pois o que é fechado não reflete, não recebe, não se altera, age como sistema de máquinas, inumano.

Vejo um paradoxo nas minhas ideias. Se o mal é o o estado de conforto para o homem, e ao atingir o mal pleno o homem cessa sua condição humana de estar sendo, este estado natural seria um processo que caminha para a completa desumanização?

Seria o mesmo que dizer que estamos todos sempre a lutar pela nossa condição humana.

Não sei se estou errado.

O pesadelo continua. Os monstros não sumirão derrotados com o despertar. Mas, por outro lado, só assim eles sumirão.

--

--

Responses (1)